15 de set de 2009

Acabou setembro então.

não adianta falar de setembro, da própria vida, porque não é vida ou porque não é texto, dizia outro dia que não se trata de meu querido diário, melhor falar da vida própria do que da alheia e acho que ninguém me entendeu. a gente senta a bunda na cadeira e pensa mais no nome do personagem do que em como vai fazer pra contar nele uma história que aconteceu com a gente mesmo e esse tipo de literatura não me faz mais muito sentido por enquanto. a gente pensa o nome do personagem porque quer dar a ele o nome parecido da mulher que a gente amou, do amigo que teve coragem de pular a janela e do parente que não se aguenta ter por perto porque a presença dele fede - mas mudar muito o nome faz com que a gente fale de uma outra pessoa: eis o conflito.

não adianta falar de setembro, melhor falar de literatura, hoje eu vi: os livros, os livros tomando conta do meu quarto e ontem mesmo, antes de ontem, eu disse ao beatles que estava cansado dessa merda de ler, a gente tem a própria vida, disse ao beatles porque escrevi aqui a respeito disso, eu pensava em outras coisas. e os livros que não foram escritos, esses a gente empilha na lista dos que mais deseja ler embora não se possa dizer com exatidão do que poderiam falar.

isso de escrever livros, de escrever blogs, de escrever nas paredes do quarto. isso de escrever metáfora pra disfarçar o que tem na ponta da língua. cansei, cansei de passar na frente do prédio onde eu morei e lembrar que era ali, lembrar de quando o caminhão estava passando e eu tinha sete anos e o filho da puta freou, porque eu tava na mira dele, eu lembro, depois conversa com a mamãe e a psicóloga, eu desenhava e me divertia até ela perguntar do caminhão. isso porque eu fiquei esperando o caminhão chegar, não sobrava nada, nem pedaço de gente pra encher o caixãozinho - ia ser um caixãozinho branco e de anjo eu já não tinha mais nem o olhar.

acontece de ter tanto pra dizer e não ter pra quem e não ter coragem. porque o meu dinheiro acabou antes do tempo e tenho de esperar quinze dias pra encher de novo a cara e, ah, me encher de verdade e compreensão e outro dia eu disse a ele no meio de toda a gente que eu precisava conversar e constrangi a todos pelo meu estado triste de quem se enche de vontade e se esvazia de vergonha e fala com a língua reta sobre assuntos dos quais nunca se lembra quando se está, como dizem, consciente.

acabou setembro. acabou setembro e o desejo sincero de salvar o mundo. ontem eu ri da minha vontade de reler ismael e hoje ri na cara de um imbecil com boina do che que me veio pedir ajuda pra salvar o mundo quando o brasil quer comprar cinquenta e sete bilhões em armas e eu disse tá brincando, meu velho, pra que atrasar o que não vê a hora de acontecer.

chegar aos quarenta me dizem que será uma vitória. tinha passado cinco semanas limpo e contando nas pontas dos dedos o quanto faltava pro estrago quando eu concordo com o amarante que eu gosto é do estrago e é exatamente por isso que eu proclamo aos que me dizem que chegar aos quarenta é fácil quando custo a chegar em outubro. e não me digam os meus queridos que a coisa tá feia e que tenho o mesmo olhar do amigo que se arrebentou de moto atrás de uma f1000 porque achava que era o dono do mundo.

eu sou o dono do meu mundo de sadismos e bizarrices assim e se eu lembro de quem, lembro porque eu quero. eu sou o dono do meu mundo, mãezinha, eu sou o dono do meu mundo, meu amigo, e nada se pode fazer contra isso. nem a favor. porque não adianta achar que se pode atrasar o que sempre esteve a ponto de acontecer, entende?

3 comentários:

Tati Plens disse...

Se abrigar de algum tempo, de alguma semana, de algum mês como se fosse salvar a tudo ou estragar a tudo ou se resolver a tudo é se encher de metáforas também...

Tati Plens disse...

e afinal a gente volta e as mesmas sombras continuam a nos atormentar.

Rodrigo Oliveira disse...

O texto, talvez, seja o que melhor marque o tempo do autor. Autor e texto, como dois lados complementares de uma ampulheta. A areia corre dos livros para nós que, uma hora, nos enchemos. De areia, do autor, de nós mesmos. E nos enchemos no bom e no mal sentido até ficarmos cheios. Até que algo entorne novamente a ampulheta. E desovamos todos aqueles grãos de volta ao papel. Até nos esvaziar-nos de nós mesmos. E essa areia, quando cai, forma castelos. Quem vê superficialmente, acha que enxerga, de fato, um castelo. Mas a gente sabe que aquilo não passa de areia.
Mas ainda assim, é ela faz a ampulheta girar, não?

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