20 de nov de 2009

Demônios de pedra.

Sentado no primeiro banco do lado direito, ali na praça da matriz, relembrava: “Foi aqui que a vi? Não teria sido do outro lado?”

O vento sul chicoteava contra seu rosto. Se tivesse sido aqui ou ali, o que importava? Se os anos haviam sido bons, se já não queria que houvesse mais anos, o que importava? Sentado na praça da matriz, tinha a imensa igreja diante de si como paisagem. As mãos dentro dos bolsos, observando o nada com atenção. Relembrava e se dispunha a retroceder nos anos: “Se pudesse refazer, recalcular, reviver — mas vivendo de novo, errando nas horas certas (na quantidade de açúcar no café, no tempo de forno do peru de natal) — eu seria melhor. Deus, como eu seria melhor!”

Os anos. Quantos? Era-lhe duro calcular, muito duro, nunca soube com certeza: esquecia-se das datas, ano após ano: não havia necessidade do mérito, do aniversário: desde o primeiro dia havia sido o mesmo dia. Só agora vê que não: eram dias que se seguiam, se ultrapassavam, datas que se cansavam a si e cansavam-na, ela, que acordava na madrugada fria, pelo tempo que tiveram, para perguntar-lhe:

— Sabes que dia é hoje?

— Terça-feira?

— Não, amor: um outro dia, um dia especial…

Esquecia-se de lembrar. Então por que agora relembra dos meses, das datas, de hora após hora como se precisasse reviver as lembranças para não morrer a cada instante? Morria-se: “Como era mesmo o nome daquela cidade? Daquele disco? Daquele livro? O número do apartamento? A cor da camiseta? A banda preferida? O telefone?” Se não encontrava uma resposta, a mais simples que fosse, o peito rasgava-se, o estômago revirava-se, os pulmões eram comprimidos por tudo que houvesse de culpa nesse corpo agora magro, doente e triste.

Sentado na praça da matriz, riu-se ao perceber que o prédio decrépito ainda exibia mais vigor que a sua parca figura. Foi ali, tinha certeza, dali eles podiam apreciar a monumental escultura de concreto incrustada no centro da cidade — prédios, prédios, prédios — mas uma praça e ali, a construção. Riu-se ao lembrar:

— Vamos embora, tá ficando escuro.

— Não tem problema, querida. É seguro aqui. Vê ali o posto da polícia?

— Não é isso, são esses monstros ali, aquelas imagens de pedra.

— As gárgulas?

Explicou do que se tratavam. Pelos primeiros encontros, pelos primeiros anos, ainda discutiam arte, sexo à oriental, arquitetura. “Não há o que temer. Vê? São de pedra, não podem sair dali: quem ousar dizer o contrário é cineasta americano que quer o dinheiro da gente”. Riram-se juntos.

Calafrio!

Sentado só, já não lhe eram somente imagens de pedra: tentou contar, uma a uma: eram seus demônios, a sobra do que ele havia sido, as razões de toda insônia. Foram as noites em claro que fizeram com que ficasse assim, de pedra, embora não vigoroso como as esculturas: se fosse algo, seria um monturo de calcário e estrume, um monte de merda endurecida.

Calafrio!

Estariam mesmo o percebendo? E rindo? Recitando, uma a uma, sem que para isso fossem requisitadas, os pecados cometidos, um a um? Não podia mais com aquilo: já lhe falaram as paredes, os móveis, o travesseiro, nenhum havia sido tão cruel a ponto de lhe dizer: “Vê, foi aqui que tudo começou”. Levantou-se rapidamente. Para onde correr? Para onde fugir? “Psiu! Vê? É aqui que tudo vai terminar”.

Sem mais pensar, observou atentamente e pela última vez o bloco de concreto esculpido, a praça — que com a luz amarela dos postes exibe contornos tão bonitos — e encarou os demônios, os seus demônios que, sabia, guardavam todas as suas culpas. A mão no bolso, um grito de pedra ecoou pela praça ao tirar dali a arma. E vários gritos puderam ser ouvidos quando mirou contra seu peito. Explica-se: para sofrer com os demônios da memória, para alimentá-los, é preciso estar vivo.

Não se sensibilizou com o desespero das gárgulas. Há anos que vinha aqui, sentava-se nesse primeiro banco e lhes dava de comer com suas lamentações exaltadas. Agora não, não mais, nunca mais: havia chegado a hora de deixar de carregar consigo a culpa que carregava sozinho e que sempre havia pertencido aos dois — só agora se deu por conta de que pertencia aos dois.

Quando a notícia foi adiante, não houve espanto nem surpresa. A não ser com o relato de uma testemunha: a mulher que se sentava no primeiro banco, mas do outro lado, e que ia ali chorar a ausência do seu querido — por onde anda, quanto sofrimento deixou — para seus demônios de pedra: “Primeiro foi um grito, mas eu não sei de onde veio. Depois, muito grito junto, grito de dor, de sofrimento. Daí, olhei pro lado e tava o homem de pé, arma não mão. Soluçava, chorava muito. Então parou, ficou imóvel. E no momento que ele atirou, moço. (pausa). No momento que ele atirou, ele sorria!”

Publicado antes no Duelo de Escritores.

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