8 de jul de 2010

Escrever para.

vou te dizer isso assim, e parecerá simples: não há história com fim, embora sempre haja, sempre há. porque nunca se é ainda, nunca mais se deverá ser, onde eu estava ontem, por onde andarei amanhã, quem sabe. por onde anda quem não tem os pés no chão, eu sempre que me pergunto e a resposta é sempre esta: por aí.

cada um teus os seus ídolos, compreenda. sempre os tive emprestados, meio que nunca tive muito bom gosto e o que me restava era ir... com o vento, digamos. acontece que em algum lugar do ano de dois mil e dois ou dois mil e três ou algum outro ano desta década eu pude ver o admirável humberto gessinger cagar na cabeça de, sabe lá, uns poucos milhares de fãs e eu precisava ouvi-lo dizer pelo menos alguma coisa que fizesse sentido e o que ouvi, na real, foram os gritos de desespero de um eu que precisava admirar, precisava muito admirar, mas vendo-o ali, o tal do humberto gessinger, engenheiro do havaí, o que vi foi um homem que suava e o suor escorria pelas mangas da camisa de linho sintético e acabava, no agradecimento, jorrando como numa cascata salgada que dava nojo de ver.

ouve-se tanta coisa a respeito de quem, a respeito da gente mesmo, que tenho que dizer, antes que novamente me digam: marcelo labes, tu não presta! ouviu? não adianta fazer-se de bom moço e isso ou aquilo e acabar ouvindo de quem menos se espera que a tua pose de intelectual suburbano nunca que vai prestar pra muita coisa a não ser pra isso mesmo, esse mesmo nada onde acabas mergulhado nem ainda no décimo dia do mês. que se faz?

explicar ou tentar explicar o que somente pode ser dito uma vez, sem repetições, ah quanta volta que se dá para chegar aqui mesmo, sempre aqui mesmo, retornar, desviar, acelerar e cair exatamente neste mesmo ponto que nunca se pode saber se foi antes ou depois ou permanecerá para todo o sempre sendo este agora mesmo do qual há tanta necessidade de escapar. sem tocar então no assunto da dormência, da confusão dançante das sinapses, um dia me acusarão de apologia às idéias brilhantes que somente se pode ter às quinze pras quatro da manhã de um dia de semana, um dia difícil da semana, de terça para quarta-feira, por exemplo.

e é só: não se vai muito longe. a queda é ali. escrever para fazer sentido, para fazer sentido ir em busca de algo que seja além - e que não seja escrever. escrever para chegar o sono, para lembrar de quando, escrever porque afinal nunca consegui desenhar nada que prestasse, nunca esculpi nada que fosse válido, escrever para dar razão a essas mãos que insisto em meter nos bolsos e das quais se desvia o olhar ao invés de perguntar o que houve com meus dedos e eu dizer: sempre foram assim.

a vontade de dizer, essa maldita vontade de dizer tudo com todas as palavras com todo o ar dos pulmões, simplesmente falar e falar sem muita inteligência nem gramática que possa suportar tanta fala, tanto grito não dado, tanta vírgula engolida, falar para dizer, de alguma forma, como querendo dizer, dizendo e querendo fazer entendido o que supostamente não poderia - por deus, pela família e por qualquer outra instituição arcaica - ser verbalizado.

escrever para não fazer outra coisa. dormir, por exemplo.

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eu sei da umidade em que tu chafurdas e sei dos monstros que estão sobre a cama na hora em que te deitas eu sei que atrás da  porta res...