6 de out de 2010

Carta-resposta...

a essa carta postada aqui.

porra, rodrigo. surpresas são bem vindas, mas desde que não sejam surpresas. que fique claro! afinal, trato-me dum jovem rapaz latino-americano cujo dinheiro que havia no bolso foi gasto em trivialidades: alcalóides, álcool e livros.

sabe que outro dia houve um conflito interessante. não possuo bens. meus pais colecionam esses brinquedos bacanas, máquina fotográfica digital, processador de alimentos, notebook e afins. e eu tenho uma banda. pô: meu irmão tem esposa (de verdade, esposa que ama o marido que ama a esposa onde ambos amam o filho que os ama, essas histórias surreais que volta-e-meia sucedem), carro e apartamento. minha irmã é uma executiva de sucesso, exportada para são paulo, que orgulho. enfim. íamos tocar, a narciso aprende a nadar e eu e quando pedi à genitora a câmera emprestada para fazer umas poses, veio um tu tens que adquirir as tuas coisas e eu respondi que havia duzentos livros no meu quarto que não tinham saído de graça e que não havia podido comprar todos os lidos, mas eram duzentos que não tinham saído de graça ainda! as misérias.

silêncio.

essa solidão que se vive. compartilhas? num desespero de chegar a buenos aires, a releitura dum nietzsche desvalido, mas tão bonito, em espanhol. em português nunca faria sentido. e relendo el anticristo e pensando que tá bom, foda-se, vou chegar em casa e me masturbar, porque do quanto estou cheio disso que leio, somente com meu pau é que vou me resolver. ou nem isso.

te tornaste um meu mito: o cara que fala de dante com propriedade. e quem sabe de dante? e quem já desceu ao inferno? admirável, certamente. estou sempre à beira de dostoievsky, mas dizem que bom quando redigo que ainda não o li. parece que assim vou mais longe.

outro dia um conflito com nizan, mais um. quando comecei meu romance, o que eu chamava de romance, tanto que eu queria. essa mania de ler! mamãe já havia dito pra eu parar, ficaria louco, essas coisas de quem sabe das coisas. essa mania de ler, li nizan. sartre pagou um pau em hum mil novescentos e sessenta. e eu li o aden, arábia... achei que faria muito quando me dispus a reescrever o conspiração. mas não! nem fodendo. nada poderia ser tão bonito, nem meu próprio romance que, não sabia, já havia sido escrito.

mas foda-se: antes ser um werner incompreendido e bairrista - o que ele sempre foi -, um gênio que se cansa e se entrega. mas eu não consigo, eu não me entrego. enfim. leiamo-no a fim de sacar o que é viver (comédia: leiamo-no e sacar não cabem na mesma frase nem na mesma vida; assim que é).

o que me resta, meu caríssimo? tudo já foi escrito, tudo já foi sentido, há tantas palavras por aí. já ouviste alanis? me parece ser o que resta. os anos passam e, com eles, a vida. tomara que haja onde guardar as malas. tomara que me sobre uma estante onde pôr os porta-retratos. mas que retratos? retratos de quem? quem me dera!






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