21 de nov de 2010

Mais que apontamentos sobre uma viagem a Buenos Aires, para dentro de mim mesmo.

¡Suerte, suerte! foram as últimas palavras inteligíveis que disse antes de deixar a cidade. As disse enquanto caminhava pela calle Bolívar, creio que à altura da Estados Unidos, a um homem que atravessara a rua ­­– às cinco da manhã, escuro, rua deserta, ele se aparta de um outro, que o acompanhava e se quedara, nesse instante, estático e curioso do outro lado da rua – para me pedir fogo.

Caminhava rumo à parada de ônibus para dali adentrar no colectivo 8 e seguir para Ezeiza. Um trajeto, em ônibus, de duas horas. Vinte minutos de espera na avenida Independência para tomar o colectivo que – me assegurara um músico da noite com o instrumento nas costas – não deveria demorar mais do que dez. O ônibus chega, o ônibus pára, os dez quilos da mochila nas costas, digo ao motorista “¡A Ezeiza, hasta el aeropuerto!”, ao que ele rebate que não vai parar Ezeiza e eu pergunto “¿Como no?”. A resposta é sutil, cansada, como se há anos estivesse a dizer a turistas que não vai porque não vai, não é seu destino, mas sem a disponibilidade para dizer que há vários colectivos 8 e que há vários itinerários percorridos. Um motorista dando de ombros e eu sem moedas (nos colectivos, só aceitam moedas), meio que desgostoso, levantando-me para deixar o ônibus e ele me diz “Yo te dejo allá, donde pasa el otro 8”. Eu humildemente agradeci.

El Aeropuerto Internacional agora, depois de uma semana, parece menor e mais simples. Pensei: “Fodam-se os Mcdonalds da vida, vou comer uma medialuna o um sándwich aqui mesmo, nesse café aconchegante e simples”. Cinqüenta pesos. Ainda tinha grana, não muita, o suficiente para pedir o resto em cigarros, por favor. Sabia que precisaria muito dos meus amigos fumáveis...

Duas horas numa aeronave tão grande quanto velha – para quem tem gosto de saber no que está voando, era um B 767-300, a bordo do qual, supus, Colombo sobrevoou pela primeira vez a América – para chegar em São Paulo, Guarulhos, fumar três ou cinco cigarros e pensar: PORRA! O QUE ACONTECEU COMIGO?

Chegar em Buenos Aires foi fácil. Com o mesmo colectivo 8, depois das tais duas horas, cheguei à Paseo Colón con Cochabamba, de onde teria que caminhar por mais três quadras para finalmente pôr os pés na Bolívar, 1291. Sob a 25 de Mayo, portentosa autopista que cruza a cidade, a simpatia do jornaleiro que me indica o caminho. Não fosse o mendigo que nesse exato momento começou a caminhar na minha direção (eu-brasileiro, sulista, tenho obrigação de me cagar de medo de mendigos; ele não me seguia, apenas caminhava na mesma direção) tudo teria saído conforme o planejado. Apertei o passo, adrenalina estalando e ali estava meu endereço. Pela primeira vez, creio, talvez, horas de internet tiveram sua devida validade: reconheci espacial, fotográfica e geograficamente o lugar onde estaria hospedado por uma semana. Mas... e aí?

O andarilho que me veio pedir fogo tinha na mão um toco de cigarro que certamente ajuntara do chão. Pediu fogo. A carteira com dinheiro incomodando meu saco (não havia melhor lugar para guardá-la), um vento frio, úmido, desconfortável – ele só veio me pedir fogo. Dei-lhe dois cigarros e me afastei dizendo “¡Suerte, suerte!”, enquanto ele dizia que me devia dois cigarros, que qualquer dia...

Em Buenos Aires fala-se castellano, claro. Só não supunha que de tantas maneiras diferentes. Conversar com Osvaldo, o chileno; Daniel, o equatoriano; Javier, o boliviano; Carolina, a brasileira. Há várias formas de se falar o castellano como há várias formas de se falar o português. Dadas as condições espaciais e geográficas, claro. Seria igual se não fosse totalmente diferente.

Certa vez ouvi que se fala bem um idioma estranho quando se faz um falante desse idioma rir. Fiz rir a Daniel, a Javi, a Osvaldo, a Matias e a pessoas que não recordo os nomes (mas cujas feições não me perdoarei por esquecer) e ri mais com eles. Os vinte e poucos anos de falava Fábio Jr. quando eu ainda não tinha nascido, de que falaram os Raimundos quando eu era ainda um guri de bosta, un pibe de mierda – os meus vinte e poucos anos eu estava a protagonizar naquele momento.

Não pude ir ao Caminito, tampouco a Palermo ou ao Delta do Tigre, conforme planejado. Acontece que na quinta-feira tinha um encontro marcado com las Madres de la Plaza de Mayo. Marcado há quatro anos e realizado como se fosse sonho. Tendo deixado meus fantasmas junto aos do Cementério Recoleta e tendo ainda inspirado vida no Museo Nacional de Bellas Artes (um dia escrevo somente sobre isso, sobre o encontro atônito com Picasso, Toulouse-Lautrec, Modigliani, Renoir e De La Veja), passeio realizado no dia anterior, quinta-feira era dia de ir à Plaza de Mayo ver com meus próprios olhos do que se tratava a marcha das mães que foram, avós e bisavós se lhes tivessem permitido serem.

Kirchner, o ex-presidente, havia morrido fazia pouco mais de uma semana. Não sei porque lamentei sozinho, ainda no Brasil, a perda de um líder tão importante. Enfim: Hebe de Bonafini, a mulher por quem me apaixonara quatro anos antes, estava novamente na minha frente, ainda mais jovem, ainda mais forte, dizendo que Néstor não estava morto, mas ali naquela praça com todos os filhos e filhas desaparecidos (os que lutavam por um mundo mais justo) a lhes guiar o caminho dali pra frente. A vista da Casa Rosada, a bandeira tremulante, as lágrimas nos meus olhos, que ao se defrontarem com uma das madres a me olhar, somente puderam chorar mais. Quinta-feira.

Há 33 anos as madres marcham naquela praça. Há quatro anos eu sabia disso. Em uma hora e meia tive que deixar de lado fantasia de turista bobo e me refazer homem: Lula, Dilma, Néstor, Cristina, Serra, Machri, Evo, Hebe, Fidel, Chávez, América Latina, Latinamerica. O que foi mesmo que aconteceu com o Chile?

Conheci mais pessoas do que podia supor. Foram o presente da minha viajem e, agora eu via, conhecê-las foi o principal motivo de ter-me ido à Argentina. Em nada – mas em nada mesmo – se pareciam com os universitários brasileiros do interior, da universidade que nunca valeu o valor do investimento, mas muito menos com os estudantes do interior que, de uma hora pra outra, depois de vinte anos de ignorância, e daí em diante, ainda não percebem que existe uma história para ser descoberta, criticada, entendida, discutida, reinventada.

Fato número um: Diós está em todos lados, pero atende en Capital Federal, escrito a punho por Georgi, minha querida, no finito caderno azul. Fato número dois: depois de três horas de conversa madrugada a dentro, sentados perto da fonte da Plaza del Congreso, ouvindo a história recente da República Argentina, tenho um sobressalto: “Ok, é como se Perón tivesse sido o Getúlio Vargas brasileiro: mesma herança fascista, mas mais do que um populista vendido, um homem apaixonado por sua pátria. Esse não foi o sobressalto. Essa foi a análise naquele momento. O sobressalto foi ter feito o vínculo – Vargas e Perón – e saber que, chegando ao Brasil não teria com quem compartilhar nada de nada.

Quinta-feira. Da Plaza de Mayo caminhei com os estudantes da Universidad Popular de las Madres de la Plaza de Mayo até sua sede. Quem me guiou foi David. Encabeçávamos uma fileira de seis, oito pessoas. Atrás de nós, mais estudantes. Falávamos de política, economia, costumes.

Na Universidad Popular, as pessoas cumprimentam-se com um beijo no rosto. É a forma de se manifestarem companheiros, creio. E todos têm os olhos brilhantes (assustadores aqueles olhos) que enxergam um futuro para seu país com justiça e igualdade; uma economia forte e saudável... E eu ali, sem entender nada do que diziam. Foram necessários dois dias de atenção e correções maiores para que eu pudesse começar a falar de fato. Comecei dizendo que não era brasileiro, mas do sul do Brasil, onde tanto se pretende ser europeu que a brasilidade acaba suspensa, calada, enclausurada. E que estávamos próximos: diante das críticas à classe média estatizante, à burguesia interesseira, à parcela burramente interessada – tanto tanto tanto – en la plata. Não, não havia muitas distancias.

Soube, então, quem fora Kirchner, o Néstor, e quem estava sendo Kirchner, a Cristina, para aqueles jovens de olhos brilhantes. E me senti extasiado: porque afinal tínhamos a mesma idade média, tivemos acesso a praticamente as mesmas infâncias (com o porém de nós ovacionarmos Xuxa enquanto eles, em meio à recessão econômica e a abertura política, contavam seus trinta mil desaparecidos), somos todos latinoamericanos!

Nada! Quando percebi onde havia me metido, já tanto fazia que conhecesse o Delta do Tigre, Palermo: já não interessavam em nada os pontos turísticos. Explicação simples: o Caminito continuará lá e o Museo de Arte Latinoamericano também. Sérgio, Marisa, Georgi... onde estarão numa próxima visita minha à cidade? E quem serei eu, então? Abdiquei do meu roteiro turístico porque, a partir daquela quinta-feira, deixei de ser turista para ser aluno; deixei de ser um estranho numa cidade estranha para me tornar gente: gente que aprende com gente.

Foram muitas histórias contadas, muitas histórias ouvidas, muitas cervejas abertas, muitos olhares de cumplicidade. Em algum momento percebi que a América Latina que eu forjei em meu pensamento sob as imagens de Hebe, Chávez, Morález, Correa, Lula e as leituras aleatórias sobre Jango, Brizola, os militares brasileiros de fato existia. Entretanto, percebi também que nossos vizinhos vivem essa América Latina, mas que para o brasileiro tanto faz. Para nós, parece, é que como se fossem todos um único país, onde se fala um idioma diverso e cujos habitantes vem para nosso litoral no verão ou, de um ângulo mais habitual, para onde se pode ir sem gastar muito dinheiro. Porque temos uma economia forte e bem podemos nos aproveitar desses rincões excêntricos.

Não existe apenas uma barreira lingüística entre o Brasil e os países vizinhos, como diriam os defensores de um suposto americanismo. Temos limitações que os 8.000 quilômetros de costa nos impuseram. Olhar adiante, sempre adiante, para o horizonte, a necessidade de espelhar o colonizador, forjar um desenvolvimento digno de ser respeitado em todo o mundo. Às favas! O interesse próprio sempre e religiosamente antecedendo o coletivo. É como se o português-brasileiro fosse ensinado nas escolas a partir dos pronomes possessivos. “Eu quero!”. Mas todos, afinal, querem. Ou por de fato quererem, ou por terem sido ensinados a sobretudo querer. “O quê?”. Isso não importa. Querer é a primeira lição. Saber o quê ou saber, simplesmente, deixamos para a próxima aula.

Mas estávamos lá, até as cinco da manhã, Georgi explicando-me Evita, Perón, os Kirchner. Com uma suavidade e uma dramaticidade autênticas de quem quer conquistar o interlocutor. Eu, que me envergonho por sempre confundir a ordem dos presidentes militares, ouvia sobre o maior presidente argentino (até então) da ascensão ao exílio, do retorno à morte, da economia pró-Argentina à recessão. Onde ficam as Malvinas?

“¡Suerte, suerte!” disse ao andarilho que me agradecia os dois cigarros ganhos em plena Bolívar, às cinco da manhã. Porque precisa de sorte, claro, todos precisamos. Mas lhe dizia “suerte, suerte!” com força, com otimismo. Não porque a Argentina vá mal; pelo contrário. Georgi me disse: quanto tempo demora uma árvore para crescer? E quanto tempo é necessário para cortar uma? Com o tempo – e com o brilho dos olhos daqueles jovens, não pode não dar certo. Vai adiante, vai para a frente, vai para cima!

Vi o dia ir-se, aos poucos, em Puerto Madero. O coração na mão, evidentemente. Precisei de uma semana para ver que tinha encontrado meu lugar no mundo. Mas como? Por quê? Domingo, anoitecia, a confusão que chegara devastando tudo que podia pensar de concreto. As luzes que apontavam para a Puente de la Mujer e a luz que emitia a mulher ao meu lado iluminando-me por dentro e por fora. Não queria ter voltado ao Brasil. Não queria ter soltado sua mão, não queria ter deixado o abraço que aquela cidade gigantesca me dava. Nem o abraço dela, pequenino. Uma semana numa cidade estranha, idioma estranho, para chegar ao Brasil com sotaque porteño, com a dor de ter deixado amigos de anos e anos, com a cabeça cheia de conclusões sobre tantas coisas. Não me senti senão provocado e a provocação ainda existe: eu quero a cidade e não sei se a cidade me quer. Podemos negociar?

O coração confuso, a cabeça mais confusa ainda. Domingo, noite alta, não conseguia mais falar o castellano, tampouco o português, não queria pensar em nada que não fosse voltar e viver por completo aquela película felliniana que havia começado sete dias antes. Eu voltarei. Sim, eu voltarei pra ficar. Ainda não sei como, nem quando. Os porquês estão todos na ponta da minha língua que não pode mais ficar calada. Eu quero ir, eu preciso ir-me embora e, do zero, fazer tudo novo, ser finalmente o eu que descobri haver aqui dentro.

“¡Suerte, suerte!” foram as últimas palavras inteligíveis que disse antes de deixar a cidade. Mas não foram as últimas pensadas. Enquanto me afastava do andarilho que tinha me pedido fogo, a quem eu tinha dado dois cigarros e que agora me agradecia e prometia devolvê-los quando nos víssemos novamente. Depois de ter me despedido dela e de ter visto o táxi evaporar-se pela Independência, depois de ter dado o suposto último beijo e de caminhar, agora, mochila nas costas e banho tomado, pela Bolívar, para dali deixar Buenos Aires, enquanto me afastava do andarilho eu somente podia dizer-me, enquanto ria, os olhos cheios de lágrimas: “Quien precisa de suerte, mi amigo, soy yo”.

Um comentário:

Ricardo disse...

ótimo texto...
compartilho das impressões e expressões
abraço
Ricardo Machado

(para o Gabriel Cortilho) eles têm aparelhos muito audaciosos muito modernosos eles têm aparelhos e técnicas inovadas eles têm dinheiro têm ...