24 de ago de 2013

Curriculum Vitae

ou "Entenda um pouco do meu foda-se"

Para Andréia Peres

CURRICULUM VITAE

não me defino para muito além dum menino mimado que viu pai e mãe enlouquecerem desde os primeiros dias de - minha - vida. sofro da síndrome de menino pobre, moleque de rua com as unhas sujas, graxa da bicicleta. era feliz lá. não fui feliz na transição. sempre ingênuo, sempre o último a ser escolhido para o futebol.

chorei por ionara em hum mil novescentos e noventa e cinco: me trocou por outro moleque da escola. chorei um choro que somente seria superado depois da leitura de meu pé de laranja lima, de vasconcellos: era eu aquele mesmo menino pobre de família louca. o portuga nunca existira. chorei na descoberta disso. desde então, as lágrimas - que viriam ser substituídas por cocaína e estaria tudo certo. demorei a reaprender a chorar. de cheirar, como andar de bicicleta, nunca me esqueci.

sofro de saudade e ansiedade, uma gera a outra de maneira indeterminada. se revesam. parei de imaginar o rio grande do sul faz pouco tempo. até então, queria voltar pro internato, acordar na cama de cima do beliche que mobiliava o quarto número dez, à esquerda do corredor, primeiro piso. outro dia, depois de anos, falei com schulapa, de nome anderson petry. mora em minas gerais, tem um filho, é divorciado, trabalha com sei lá o quê e entendi que a euforia de conversarmos era somente minha. não me ofendi: minha saudade é sempre maior, eu digo. sou eu quem sofro e sofro pelo dois, eu penso. tanto faz, então.

descobri que o que tenho nos dedos chama-se baqueteamento digital. sinto vergonha das minhas mãos quando olham para elas. por isso estão sempre em movimento, nos bolsos, correndo o atrás, escondendo-se atrás dos meus cigarros. pensava tratar-se de sequela daquele tratamento para crescer a base de hormônio na urina de mulheres grávidas, dezoito injeções, três vezes por semana, se faltasse um dia, já era. o calendário contava hum mil novescentos e noventa e seis.

comecei a escrever um ano antes. lembro do meu primeiro poema, que chamo de juvenília, que significa exatamente primeiro poema dum poeta. sou bom com as palavras por me achar pequeno, como as pessoas pequenas, as mulheres pequenas que são irritantes e a gente vê que se impõem pelo tamanho pouco. eu, gente pouca, homem pouco, pouco peso, poucos pêlos, pouco tudo, tinha que achar forma de ser encontrado: escrevia. sempre deu certo.

arrogante de carteirinha, falo pelas costas, ameaço, mas olho pro lado se me encaram. também as mulheres. covarde. busco no álcool o conforto que sentia meu pai quando dirigia bêbado comigo na carona. quase apanhou, o velho. acho que esqueceu meu nome. acho que esqueceu o próprio nome. meu pai me dói mais que o frio de joquim, de ramil. e a dor é realmente verdadeira no mais ilustre filho de satolep.

leio para escapar do mundo e escrevo para escapar pro mundo o que transborda. me creio o melhor poeta do estado e talvez do sul do país. o melhor vivo, pelo menos. sei que devia escrever prosa, mas não tenho idéias contínuas a ponto de. nem as neuroses continuam. sempre se emendam, remendam, refazem.

sinto saudade de lígia e de vinícius, embora reconheça que são menos irmãos do que foram. devo mil reais para lígia que nunca vou pagar. vinícius me deve dez reais há pelo menos dezoito anos e diz que quem deve sou eu. rimos disso. lígia só lembra da grana que devo porque anotou em algum lugar importante: perdeu a memória quando lhe operaram a cabeça. não sabe nunca que mês é, que ano é. mas vomita aquela grana em cima de mim sempre que pode.

sou filho de mãe perversa e pai alcoólatra: matava formigas no quintal com plástico derretido.

perdi meu primeiro amigo de infância pra uma infecção desconhecida. perdi vários outros amigos pras suas esposas e seus filhos. estou em idade de esposa e filhos embora ainda não saiba direito quem sou nem o que são isso, esposa e filhos.

me perdi na adolescência, suponho, conservado em álcool e sonhos.

não tenho preferência entre sartre e camus, nem entre saramago e lobo antunes. depende do interlocutor, claro.

se eu fosse menina, me chamaria stephany.

achei que era gay até o momento em que descobri que não era. hoje me divirto com o dúbio, só.

acho a poesia chatíssima. sobretudo a dos outros. gosto de ler o que ninguém lê pra arrotar autores na cara das pessoas.

café com leite sem açúcar.

amendoim japonês com pepsi twist.

não passo um mês sem ficar duro de grana.

gosto de todo tipo de música que soe bela de alguma maneira.

prefiro falar de mim porque acho que me conheço, mas sempre me conheço um pouco falando de mim: não acaba nunca isso de conhecer-se, afinal.

ouço engenheiros, legião, biquini e todo tipo de merda oitentista porque cresci por lá; foram meus momentos mais felizes.

amo ainda cada uma de minhas namoradas como no dia em que descobri que amava cada uma delas. mas escondo isso de todo mundo. por segurança.

quando bate a melancolia, olho pela janela - como agora - e penso que a vida não presta.

melhor não ter nascido, penso.

tentei morrer várias vezes. de overdose.

tentei morrer de bicicleta, faz pouco.

vou morrer de câncer, decerto.

não sei mais o que escrever.

tenho medo do quanto te falo. porque esqueço do que escrevo. porque as pessoas não esquecem do que escrevo. porque me esqueço que as pessoas não esquecem.

falo demais.

e paro de falar assim. troco conversas por suspiros numa boa. e te deixo sozinha, assim.

um beijo.






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