2 de abr de 2009

Paola.

Acordo pensando que não pode ser, mas é. 6:30. O banho quente, o café rápido, o cigarro rápido, passos rápidos como se pode: o ônibus.

7:05. O ônibus, o motorista que me cumprimenta com o sorriso de um velho conhecido. No fundo é, mas ele não sabe disso. Um lugar no ônibus para sentar e ler. Todos os dias, sentar e ler, como uma compulsão, como a pressa de sair do subúrbio, fugir das caras marcadas pelo subúrbio; a minha própria. Mas há pessoas em volta.

A mania compulsiva de encará-las, olhar em volta à procura de quem, talvez, perdeu o horário hoje, acordou mais cedo e não veio agora porque já foi. A moça magérrima, linda, que não pode falar porque perde a beleza. O rapaz com quem ela conversa, de quem tenho ciúmes, queria estar eu a falar com a moça. Não. Queria que o rapaz não estivesse ali para que ela simplesmente não falasse: personagens.

Assim: mais adiante, a índia mexicana. Dezoito, vinte anos. Saberá sua própria beleza? A pintura que carrega no rosto pesa nos meus olhos. Tons róseo-azulados que me fazem somente querer vê-la nua, sem maquiagens, sem retoques. E me faz supor que trabalha numa relojoaria, numa loja de roupas para pessoas que precisam se sentir bonitas.

Enfim, o trabalho, depois da leitura cansativa de um Scliar que escreve para adultos como se fôssemos adolescentes, tratando de Kafka como um nome, apenas. O trabalho: aonde se encontra mais família do que na própria família. Onde se divide, como se fosse família, o que na verdade não se chega realmente a ter. Onde se almoça junto.

Personagens, personagens, como dizê-los?, como dizer-lhes? O bar, a vendedora, o motorista, a menina que caminha rápido, eu os sei. Eu os vejo e os acompanho: sinto falta de encontrar quem me aparece no dia-a-dia. Como dizer que não sentem a minha falta? Afirmo que não, não pode ser, mente fértil a tua.

Um vestígio: uma voz, um olhar, um não-olhar-porque-ele-está-olhando. Quem dera, um nome! Um nome para completar o círculo. Um nome para pensar no nome, não na imagem. Não mais somente na imagem. A fotografia é um arquivo sempre mais pesado do que o texto. Também aqui. O texto do nome: o início da história do nome, da história do meu personagem.

Hoje, sexta-feira, toda a semana percebendo que a índia mexicana de três meses de companhia (qual companhia? Vontade de dizer bom dia e sorrir cúmplice, ouvir o seu lamentar) não apareceu. Deve ter errado na maquiagem. A menina magérrima, linda, começou a namorar: não havia aliança ali há dois dias. Hoje, sexta-feira, entrar no ônibus e descobrir que trocaram de motorista, é assim mesmo, demitem-se pessoas. Mas e eu?

A rotina, o desconhecido. Minha simpatia por pessoas que não têm nome, que acompanho sem querer: me invadem o mês, a viagem, a espera: tornam-se parte dela sem eu querer, sem que possa optar por quem vou acompanhar na semana que vem, por quem desperdiçarei algum tempo pensando: cadê?, quem é?, por quê?, será? Minha simpatia por pessoas que não tem nome. Paola agora tem.

7 comentários:

fabioricardo disse...

adorei a narrativa, essa coisa de analisar os personagens, mesmo que só superficialmente,olhando de longe.

Labes disse...

foda é 'conviver' com essa gente toda. rs.

Rodrigo Oliveira disse...

duca. duca mesmo.

Labes disse...

gracias, rodrigo.

CostadeSSouza disse...

muito bem construído. fora do trivial. fiquei pensando onde iria entrar o "paola" e o nome entrou muito bem no texto. lembro que uma das coisas que mais me fazem sentir adolescente de novo é chegar em itajaí e reencontrar as pessoas que nunca cumprimentei. é muito familiar! bela sacada.
abraço

Labes disse...

Familiar e estranho, não é? Tenho essa mesma impressão. E creio que, cumprimentando essa gente com o fim de torná-la próxima somente estragaria a (perversa) brincadeira de crer-se bem acompanhado por estranhos.

Mareike disse...

Oi, Labes!!!!

Passei por aqui pra ler teus textos. Desse em especial, eu gostei muito. Tb sempre me pego pensando nas pessoas que sempre vejo pela rua, no dia-a-dia, e me pergunto se elas tb me percebem fazendo parte da paisagem diária delas. Coisa doida!!!

Beijo, querido!!

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