12 de dez de 2009

Quantos degraus.

não ria do meu sotaque, baby, não é engraçado nem bonito e não me fale de porto alegre, de não sei quem que tu conheceu que veio do rio grande do sul porque eu não quero saber, ok? aconteceu do dia pra noite, como coisa muito estranha, mas era antes, voltei de curitiba com sotaque, de são paulo com sotaque, do oeste com sotaque, com sotaque da puta-que-pariu e não adianta, tenho de explicar sempre que nasci aqui nessa merda de vale embora eu já confunda as minhas histórias.

quais histórias, não?! eu tento de toda maneira, tu sabes, eu sei também do meu estrago, do pavio curto, da vida que se alonga embora eu sempre faça o oposto, queira o oposto, eu ando torto por linhas certas, se é que tu me entendes. falando sério: tenho pensado nas teorias da memória, eu calculo que vivi vinte e cinco pobres anos e a memória de um velho, maldita memória de velho, eu lembro com saudade, velho impotente, eu lembro com saudade do tempo em que eu trepava, velho com remorso, eu lembro com saudade do dia em que ela foi embora, velho triunfante, eu lembro do dia em que eu quase morri. com saudade.

da teoria da memória à teoria da saudade, sim, porque se maldito não tivesse inventado a palavra seria fácil ser europeu do norte, bem mais frio, e passar dia após dia pensando numa forma de explicar a dor no peito, na cabeça e na cabeça do pau, pensando em explicar, pensando apenas, mas temos o nome, chamamos saudade e ficamos pensando no quando em vez de no como e eu não tenho a menor idéia do que quis dizer com isso.

sabe do gin? corrói. eu digo com saudade de quando vi nevar - dia medonho, três graus ao meio dia e nada de neve, mas naquele dia nevou aqui, aqui dentro, nunca mais se pode ser o mesmo depois de uma tentativa de neve, granizo nas costas às três da tarde, o granizo é o prenúncio da neve, não nevou e aquelas pedras nas costas - eu digo que vai nevar com saudade do dia em que não nevou mas, baby, neve é gíria de quem mete o nariz onde houve um chamado.

eu sinto falta, sim, na medida em que mais odeio e nunca vou poder explicar se se trata de amor ou ódio isso de querer voltar no tempo e desprezar com longas e trinfuais escarradas isso que se chama de futuro, que chamamos de futuro e ao que estamos presos, honey, tu sabes que não se pode escapar de.

eu sinto falta de escrever cartas e de dormir sóbrio, com sono, acordar num domingo e pensar no quanto não se tem pra fazer nesse dia. eu sinto falta de um tempo que será sempre ontem, sempre ontem, não adianta, eu tenho vinte e cinco pobres anos e o que me espera é lembrar como agora com saudade de um tempo que passou, o que eu fazia naquele tempo? eu lembrava de um outro tempo, baby. é por isso que tratei de esquecer. sim, o ontem. e o hoje. eu não tenho certeza do que fiz semana passada e é melhor assim. mas eu lembro das escadas. acho que esqueço para esquecer também das escadas. eu devia ter contado os degraus, baby. acho que contei. eu devo ter contado. mas esqueci, entende?

5 comentários:

Elaine Cristina disse...

Isso não é lá um comentário muito bem elaborado, mas esse texto, hoje, me deixou triste. Palavras bem colocadas, pensamentos bem conduzidos. Confissões? Sei lá! Mas seja lá o que for, mais uma vez eu gostei!

Nane disse...

Gostei de conhecer este teu lar Labes. Escrita moderna, para uma alma de cabelos grisalhos. Senti e curto demais quando sinto um texto.
Só posso te dizer: Pobre garoto ácido!

Um forte abraço! :D
Nane

fabioricardo disse...

Sendo bem porco: fodam-se teus poemas. Quero um livro teu de amarguras vomitadas, como essa aqui. Tu és canalha, és maldito, és velho. Um velho enojado do mundo, preso num corpo de um gaúcho (rá!) de vinte e poucos anos.
Tu escreve umas preciosidades quando teu intuito não é soar agradável aos ouvidos.

Lou disse...

tem coisas que é melhor esquecer, eu concordo.

HNETO disse...

Gosto que perguntem sobre meu sotaque baiano, não esse fabricado nas novelas da GLobo, mas do baiano da Bahia, do Recôncavo, me faz lembrar quem eu sou.

será fim de tarde daqui a pouco e veremos os suicidas fazendo fila em cima da ponte do tamarindo para decidir quem pula e quem não levi...