17 de jan de 2010

Umidade.

não adianta procurar palavras para explicar isso tudo, o amor, a saudade, a melancolia da chuva em fim de tarde, a tristeza que se toca com os dedos ao ouvir chico buarque, meu deus!, e a gente acha que sofre e aquele pobre diabo, como o outro, eu juro que nunca entendi como sir roger waters continua vivo, eu deveria mesmo é pagar uma matrona para lhe dar colo, onde já se viu chorar a vida inteira a ausência do pai, a ausência do significado da vida, a mãe perversa e a falta de sentido em tudo quanto se pode perceber, onde já se viu, mas eu não faço o mesmo?

aos poucos eu descubro, era assim: havia uma cidade com três milhões de habitantes, eu não conseguia sair de casa àquela época, hoje quando eu conto que morava na leão XIII, transversal da lima e silva, neguinho arregala os olhos e pergunta como foi que eu sobrevivi e tenho sempre que explicar que a vida foi fruto de um corte, sim, decepei porto alegre de mim, saí com as mãos abanando, o rabo entre as pernas e até hoje eu não lamento, porque é melhor estar vivo, mas me encontrariam um dia no banheiro, eu teria engolido a língua, eu teria morrido de todo, entende?

então que ela me disse que porque meu pé não doía eu precisava me adoentar e eu disse que não, não sabem que ando doente, não sabem de mim sequer, é coisa minha e comigo, deus me livre tornar público, tem gente que morre pela língua, eu morro pelo nariz. então eu disse a ela que não, não passarei mal algum, não faz diferença, é como no dia do mercado, quanto tempo faz?, chorei pra ter o livrinho de figurinhas, marcos disse não leva, não é figurinhas, embirrei, tava lá com o álbum e não era álbum porra nenhuma, nunca mais duvidei dele, acho que queimei aquele livro de bordado, por que põem desenhos coloridos numa merda dessas?

eu tenho várias mães, uma pra cada dia da semana, talvez pra cada dia do mês, uma conversa amena, um contato seguro, gosto de quem me conhece, sinto orgulho, e a mãe dela nunca foi tão minha e eu preciso cumprir a promessa de rever minha mãe da praia ainda logo, o quanto antes, sinto tanto a tua falta! a orfandade é isso, deixar-se conhecer, permitir que possam entrar, mas eu nunca entro, quando entrei uma única vez, meu pai decerto me trazia no colo, quando me permiti entrar vi que não havia saída, então fico sempre ali, a porta entreaberta, conversando e vivendo, deixando saberem que vivo, mas não há como entrar, baby. e se a porta novamente se fecha?

eu perdi dover, edos, adriano. eu perdi ana, bella, pedro, tali. eu perdi lou, márcio, clazita. eu perdi tanto já, e há tanto ainda pra perder. eu não quero mais jogar, baby. eu quero só ir, só ir, e que não haja nunca linha de chegada, porque não sei se ganhar resolve. tenho de continuar tentando, entende? eu preciso continuar tentando, entende? sim, hoje faz chuva e faz frio e eu queria mesmo era me esconder debaixo da cama. mas amanhã fará sol e eu poderei dar fim ao mofo. não é nada de tristeza, de cocaína, de trago, não é nada nem mesmo de melancolia e saudade. é uma questão de umidade e só. percebe?

3 comentários:

Mona lisa Budel disse...

Intrigante ...

E Putz isso está muito ruim.Confuso.
Hereditário e quase intimista.
Acho que perdesse de vez a vergonha na cara.

Quer saber? Gostei.

Tati Plens disse...

e como você vai saber o que tanto poderia haver dentro da porta se não entrar?

Lou disse...

É, a questão não é entrar. Acho que é, no fim, o medo de ser expulso de dentro quando já se sente confortável. Mas o que é o medo, né? Inexplicável. Enfim.

Era isso.

[duns inéditos aí] um carimbo exatamente aqui duas assinaturas de testemunhas três vias que serão analisadas por altos funcionários e co...