mariana me diz que não é
possível definir o que é e
não amor, ou se sabemos
quando amamos de verdade
digo a ela que amar é isso
de conhecer e sentir-se co-
nhecido - acaso não seja
apenas costume ou vício
como cachaça ou tabagismo,
droga tão forte que provoque,
derrote e derreta os sentidos
a ponto de que imaginar o toque
seja tão dolorido como insistir em
lembrar o que se quer esquecido.
10 de fev. de 2020
talvez se fôssemos britânicos
nos 80 nos drogássemos de
heroína porque não teríamos
as canções e a esperança de
um brasil recém liberto.
talvez se te encontrasse na rua
e declamasse rimbaud como
quem tira um pedaço de carne
dos dentes me desses a atenção
que eu não mereço.
afinal, poesia é coisa de des-
graçados, e não adianta recl-
amar muito porque os dias,
os dias passam sempre tão
depressa
: há entrelinhas nas entrelinhas
e só leremos palavras feitas
quando
desfolharmos completamente
os cadernos em
que nos escrevemos.
nos 80 nos drogássemos de
heroína porque não teríamos
as canções e a esperança de
um brasil recém liberto.
talvez se te encontrasse na rua
e declamasse rimbaud como
quem tira um pedaço de carne
dos dentes me desses a atenção
que eu não mereço.
afinal, poesia é coisa de des-
graçados, e não adianta recl-
amar muito porque os dias,
os dias passam sempre tão
depressa
: há entrelinhas nas entrelinhas
e só leremos palavras feitas
quando
desfolharmos completamente
os cadernos em
que nos escrevemos.
23 de jan. de 2020
[pra Juliana]
porque não me constestas, não te
procuro - visualizaste, não respon-
deste - porque não te marquei e não
me marcaste, ou porque me escondi
e te escondeste. porque não me
chamaste, não te chamei, e a tarde
reclama, como um cacoete, que me
digas se vai tudo bem, ou se tudo foi
pro cacete. na etiqueta das relações,
reclamo que irmos devagarinho
é água fria sobre as tentações -
ou, por outro lado, estava certo o ve-
lhinho que denunciava as armações
: bauman nos bebe de canudinho.
porque não me constestas, não te
procuro - visualizaste, não respon-
deste - porque não te marquei e não
me marcaste, ou porque me escondi
e te escondeste. porque não me
chamaste, não te chamei, e a tarde
reclama, como um cacoete, que me
digas se vai tudo bem, ou se tudo foi
pro cacete. na etiqueta das relações,
reclamo que irmos devagarinho
é água fria sobre as tentações -
ou, por outro lado, estava certo o ve-
lhinho que denunciava as armações
: bauman nos bebe de canudinho.
o pai nunca deixou faltar
nada em casa, apenas o
pai: havia comida, luz,
telefone, água encanada
e o muro de arrimo para
deter o ribeirão, "mais de
mil sacos de cimento", ele
dizia quando ainda falava.
o homem por trás da casa
trabalhava à noite na fábri-
ca, de manhã na roça, e se
esvaía entre a cachaça e a
carroça. o pai nunca deixou
faltar nada, apenas o pai.
nada em casa, apenas o
pai: havia comida, luz,
telefone, água encanada
e o muro de arrimo para
deter o ribeirão, "mais de
mil sacos de cimento", ele
dizia quando ainda falava.
o homem por trás da casa
trabalhava à noite na fábri-
ca, de manhã na roça, e se
esvaía entre a cachaça e a
carroça. o pai nunca deixou
faltar nada, apenas o pai.
(a vocês e quem mais)
os meus amigos escrevem a prosa
e a poesia de sua geração, e são
brilhantes, tão importantes, meus
amigos são tão inteligentes e tão
solitários. meus amigos escrevem
contos e poemas, também contam
moedas, como eu, meus amigos
chafurdam na lama e comem restos.
meus amigos escrevem tão bem,
leem tão bem, meus amigos são
tão importantes, mas tão solitários,
e moramos longe. meus amigos
sempre se alegram diante de notícias
boas, ainda que elas rareiem, é fato.
os meus amigos escrevem a prosa
e a poesia de sua geração, e são
brilhantes, tão importantes, meus
amigos são tão inteligentes e tão
solitários. meus amigos escrevem
contos e poemas, também contam
moedas, como eu, meus amigos
chafurdam na lama e comem restos.
meus amigos escrevem tão bem,
leem tão bem, meus amigos são
tão importantes, mas tão solitários,
e moramos longe. meus amigos
sempre se alegram diante de notícias
boas, ainda que elas rareiem, é fato.
estou em casa, trabalhando,
calçando meus tênis novos
para que me acostume a
usar tênis novos - o menino
pobre que eu fui se assustava
com o que era novo, porque
o corpo era velho, era sujo da
rua, o corpo não suportava a
brancura do novo, o cheiro do
novo. o homem pobre que eu
sou, no entanto, calça tênis
novos enquanto trabalha em
casa - acostumar-se muda
com o tempo, mas não.
calçando meus tênis novos
para que me acostume a
usar tênis novos - o menino
pobre que eu fui se assustava
com o que era novo, porque
o corpo era velho, era sujo da
rua, o corpo não suportava a
brancura do novo, o cheiro do
novo. o homem pobre que eu
sou, no entanto, calça tênis
novos enquanto trabalha em
casa - acostumar-se muda
com o tempo, mas não.
poema retirado de uma notícia de jornal em 2020
no fim do protesto, manifestantes
viraram lixeiras e atiraram pedras
nos policiais, que reagiram usando
cassetetes, torniquetes e bombas
de gás. os manifestantes fugiram
pelas ruas do centro antigo, e foram
perseguidos. por alguns minutos,
interromperam o happy hour em
barzinhos, que estavam lotados
por volta das 20 horas.
no fim do protesto, manifestantes
viraram lixeiras e atiraram pedras
nos policiais, que reagiram usando
cassetetes, torniquetes e bombas
de gás. os manifestantes fugiram
pelas ruas do centro antigo, e foram
perseguidos. por alguns minutos,
interromperam o happy hour em
barzinhos, que estavam lotados
por volta das 20 horas.
talvez depois, quando te olhares
no espelho e te reconheceres nos
traços dos teus, vindo de onde vi-
este, caminhante dos caminhos
onde teus pés, aquele e este, pisa-
ram a terra, a grama, a areia mo-
lhada da praia. talvez depois, quan-
do tiveres despertado, quando tiveres
te abraçado tantas vezes que já
terá se tornado natural o caminho
das mãos. talvez depois que os
dias tiverem passado (neste e nou-
tros calendários) é que então...
talvez depois. agora, não.
no espelho e te reconheceres nos
traços dos teus, vindo de onde vi-
este, caminhante dos caminhos
onde teus pés, aquele e este, pisa-
ram a terra, a grama, a areia mo-
lhada da praia. talvez depois, quan-
do tiveres despertado, quando tiveres
te abraçado tantas vezes que já
terá se tornado natural o caminho
das mãos. talvez depois que os
dias tiverem passado (neste e nou-
tros calendários) é que então...
talvez depois. agora, não.
sentes mais fundo às terças
e às sextas-feiras, como se
as tardes só terminassem no
começo novo da manhã.
sentes mais forte quando
das 7 às 7 e meia preparas
teu café e admiras a parede
: prometeste colar ali um
retrato para te fazer companhia.
pensas que podes então
finalmente conhecer-te
ao te perguntares se amor
é o que sentes pesar no peito
ou aquilo a que te acostumaste.
e às sextas-feiras, como se
as tardes só terminassem no
começo novo da manhã.
sentes mais forte quando
das 7 às 7 e meia preparas
teu café e admiras a parede
: prometeste colar ali um
retrato para te fazer companhia.
pensas que podes então
finalmente conhecer-te
ao te perguntares se amor
é o que sentes pesar no peito
ou aquilo a que te acostumaste.
é mais fácil quando admites que
não choras sozinho, não caminhas
sozinho - há sempre um quê de luz
iluminando teus passos, e não adivi-
nhas de onde vem. é mais fácil quando
divides o peso e o carregamos juntos
: fardos são fardos - como canções são
lembranças recuperadas diante da por-
ta do elevador. é mais fácil quando divi-
des o riso e compartilhas o abraço. é
mais fácil quando, diante da cidade,
admites as curvas da baía, as arestas
da serra longínqua, as dobras das
marés - e admites sentir saudade.
não choras sozinho, não caminhas
sozinho - há sempre um quê de luz
iluminando teus passos, e não adivi-
nhas de onde vem. é mais fácil quando
divides o peso e o carregamos juntos
: fardos são fardos - como canções são
lembranças recuperadas diante da por-
ta do elevador. é mais fácil quando divi-
des o riso e compartilhas o abraço. é
mais fácil quando, diante da cidade,
admites as curvas da baía, as arestas
da serra longínqua, as dobras das
marés - e admites sentir saudade.
febre ainda ou já podemos esvaziar
o mercúrio dos termômetros e servi-lo
em copos coloridos para brindar nossas
derrotas todas?
febre ainda ou os calafrios e esse
ranger de dentes são palavras que ainda
não foram ditas (nem serão) tampouco escritas
num poema veloz e sem capricho?
febre ou não, que avanços da medicina
nos colocam à altura das decisões de
um corpo que pouco nos pertence?
febre ou não, o sábado e o domingo
ficaram escondidos sob o tapete, como
convém aos micróbios e aos covardes.
o mercúrio dos termômetros e servi-lo
em copos coloridos para brindar nossas
derrotas todas?
febre ainda ou os calafrios e esse
ranger de dentes são palavras que ainda
não foram ditas (nem serão) tampouco escritas
num poema veloz e sem capricho?
febre ou não, que avanços da medicina
nos colocam à altura das decisões de
um corpo que pouco nos pertence?
febre ou não, o sábado e o domingo
ficaram escondidos sob o tapete, como
convém aos micróbios e aos covardes.
[para os 69 de seo alfredo]
aprendemos a falar de amor faz pouco
(o espanto diante da ausência agita as
palavras e a importância de dizê-las)
mas depois o pai perdeu a voz e tudo
que comunica.
antes dele perder a audição ouvíamos
música juntos - o mesmo zezé di camargo
& luciano, o mesmo leandro & leonardo
- e eu nunca perguntei qual era sua canção
preferida
para que hoje, seu aniversário, eu pudesse
cantá-la baixinho enquanto abraço uma
saudade, enquanto abraço o pai e o menino
que fui (nos braços do pai) como naquela
fotografia
em que eu chorava, ele sorria.
aprendemos a falar de amor faz pouco
(o espanto diante da ausência agita as
palavras e a importância de dizê-las)
mas depois o pai perdeu a voz e tudo
que comunica.
antes dele perder a audição ouvíamos
música juntos - o mesmo zezé di camargo
& luciano, o mesmo leandro & leonardo
- e eu nunca perguntei qual era sua canção
preferida
para que hoje, seu aniversário, eu pudesse
cantá-la baixinho enquanto abraço uma
saudade, enquanto abraço o pai e o menino
que fui (nos braços do pai) como naquela
fotografia
em que eu chorava, ele sorria.
É preciso matar o poema
ao terminar de escrevê-lo
e terminar de escrevê-lo
e terminar de matá-lo
porque morrer leva tempo
(resistem tanto ao fim,
homem e poema,
que chegamos a duvidar
de último suspiro
cantos dos anjos,
céus, eternidades)
e como golpe final
oferecemos apenas
lhe fechar os olhos
e despedirmo-nos
sem saudade.
ao terminar de escrevê-lo
e terminar de escrevê-lo
e terminar de matá-lo
porque morrer leva tempo
(resistem tanto ao fim,
homem e poema,
que chegamos a duvidar
de último suspiro
cantos dos anjos,
céus, eternidades)
e como golpe final
oferecemos apenas
lhe fechar os olhos
e despedirmo-nos
sem saudade.
29 de dez. de 2019
tenho os pulmões e os olhos
queimados pelo cloro - vasculhei
a casa em busca dos teus vestígios.
o que ficou de ti e dos teus cabelos
(debaixo dos móveis, nos pés das
cadeiras, como pra dizer que estiveste
e te descabelaste por entre esses
cômodos) foi sugado pelos mil
watts de potência do aspirador.
limpei marcas, digitais, pegadas,
reflexos imaginados no espelho.
restam ainda a pele o os chumaços
de pelos que repousam abaixo do
ralo, inalcançáveis, permanentes.
queimados pelo cloro - vasculhei
a casa em busca dos teus vestígios.
o que ficou de ti e dos teus cabelos
(debaixo dos móveis, nos pés das
cadeiras, como pra dizer que estiveste
e te descabelaste por entre esses
cômodos) foi sugado pelos mil
watts de potência do aspirador.
limpei marcas, digitais, pegadas,
reflexos imaginados no espelho.
restam ainda a pele o os chumaços
de pelos que repousam abaixo do
ralo, inalcançáveis, permanentes.
Se fôssemos proprietários de um mercado de fim de bairro
em que vendêssemos utilidades para além
do arroz-e-feijão
: alvejantes, vassouras, óleo de peroba para
os móveis de madeira,
com um açougue,
uma balança,
uma máquina registradora
(as crianças comprando doces
depois da aula,
os velhos comprando aguardente
antes do almoço),
um letreiro anunciando as promoções
da semana
(o quilo da carne em letras miúdas),
e brinquedos de plástico,
potes de plástico,
acessórios de plástico
(um mundo sem ranhuras),
e baldes e bules
temperos diversos
sal grosso
sal grosso
sal grosso
e foguetes para comemorarem
datas como esta, de Ano Novo,
e um bilhete anunciando
"Estaremos fechados no dia 1o
por motivo de balanço",
e não para trepar, descansar
- adormecer diante da TV -
mas apenas para calcular
o que foi perda,
o que foi ganho,
quanto faltou para
atingirmos a meta
e discutir agressivamente
a meta.
em que vendêssemos utilidades para além
do arroz-e-feijão
: alvejantes, vassouras, óleo de peroba para
os móveis de madeira,
com um açougue,
uma balança,
uma máquina registradora
(as crianças comprando doces
depois da aula,
os velhos comprando aguardente
antes do almoço),
um letreiro anunciando as promoções
da semana
(o quilo da carne em letras miúdas),
e brinquedos de plástico,
potes de plástico,
acessórios de plástico
(um mundo sem ranhuras),
e baldes e bules
temperos diversos
sal grosso
sal grosso
sal grosso
e foguetes para comemorarem
datas como esta, de Ano Novo,
e um bilhete anunciando
"Estaremos fechados no dia 1o
por motivo de balanço",
e não para trepar, descansar
- adormecer diante da TV -
mas apenas para calcular
o que foi perda,
o que foi ganho,
quanto faltou para
atingirmos a meta
e discutir agressivamente
a meta.
Uma imagem de ti que te
ignora porque não te precisa
para existir
: holográfica, mora na memória
e não compreende os pormenores
dos teus gestos sutis.
Não tem hora para surgir,
embora prefira o anteceder
ao sono,
como os monstros de filmes de terror,
como fantasmas, contas em aberto,
uma torneira que goteja no banheiro.
ignora porque não te precisa
para existir
: holográfica, mora na memória
e não compreende os pormenores
dos teus gestos sutis.
Não tem hora para surgir,
embora prefira o anteceder
ao sono,
como os monstros de filmes de terror,
como fantasmas, contas em aberto,
uma torneira que goteja no banheiro.
homem, não te culpes se à hora
da arrumação das coisas confundires
as sacolas: saber o que deve
ou não ir fora te exige demasiado,
é questão de prática e de tempo
(saberás somente quando te fizer
falta um par de parafusos ou um
lenço ou um retrato tirado sabe-se
lá quando). é questão de prática,
e prática, sabes, se adquire no
passar dos dias e à necessidade
ou à falta do que agora desperdiças
- porque salvar não basta, e tu sabes.
- porque guardar não cabe, e tu tentas.
sobretudo não te culpes se o rebote,
se o repuxo te exigirem fazer sumir
o que pensavas dever permanecer.
não te culpes, que já tens os baús
cheios. não te culpes, sobretudo,
porque os carregas sozinho.
da arrumação das coisas confundires
as sacolas: saber o que deve
ou não ir fora te exige demasiado,
é questão de prática e de tempo
(saberás somente quando te fizer
falta um par de parafusos ou um
lenço ou um retrato tirado sabe-se
lá quando). é questão de prática,
e prática, sabes, se adquire no
passar dos dias e à necessidade
ou à falta do que agora desperdiças
- porque salvar não basta, e tu sabes.
- porque guardar não cabe, e tu tentas.
sobretudo não te culpes se o rebote,
se o repuxo te exigirem fazer sumir
o que pensavas dever permanecer.
não te culpes, que já tens os baús
cheios. não te culpes, sobretudo,
porque os carregas sozinho.
restam umas caixas e faltam
uns móveis - como uma pre-
sença que se ausenta para
sempre - não é de morte que
se trata, embora também seja.
há que se rearrumar a casa
comprar novidades parceladas
em muitas vezes, muitas vezes.
tudo vazio, resta o cheiro nas
paredes, nas esquinas entre
os cômodos. tudo vazio,
resta uma pergunta, única,
derradeira: afinal, e apesar
de tudo, fomos felizes, não fomos?
uns móveis - como uma pre-
sença que se ausenta para
sempre - não é de morte que
se trata, embora também seja.
há que se rearrumar a casa
comprar novidades parceladas
em muitas vezes, muitas vezes.
tudo vazio, resta o cheiro nas
paredes, nas esquinas entre
os cômodos. tudo vazio,
resta uma pergunta, única,
derradeira: afinal, e apesar
de tudo, fomos felizes, não fomos?
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já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...
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eu tinha quantos anos e quantas vezes vou escrever sobre isso, mas fazia sol e viriam as pessoas viriam, mas elas não vinham e havia bolo e ...