como se depois da última demão
de tinta descobríssemos que a
parede é falsa
como se depois do último móvel
escada acima descobríssemos
que nos mudamos para a casa
errada
como se a madeira viesse nova
mas já corroída pelos cupins
como se a casa me dissesse vem
e eu te dissesse sim
e tu não me dissesses nada.
3 de set. de 2020
(para Marcos Vinicius, meu irmão)
o íngreme nos exige algum
equilíbrio do corpo enquanto
âncora ou contrapeso
os pés pisam sem que os olhos
vejam / os braços lá e cá dando
senso e dando sentido
(há que se confiar em quem vai
à frente e proteger o quanto possível
quem segue na retaguarda)
todas as montanhas destas terras
desde aqui até lá adiante
vinícius já conquistou todas elas
(é com confiança que se exercita
o amor entre os homens: a passos
firmes e gotas de suor na lapela)
o íngreme nos exige experiência
: saber subir como com a insistência
de quem busca deus entre as nuvens
(do alto o mundo parece perfeito
do alto as distâncias se minimizam
do alto, lado a lado com meu irmão)
o íngreme nos exige experiência
: saber descer como quem procura
água e evita a todo custo a queda
porque apesar dos montes fomos
feitos em planície, ao lado do
ribeirão, de onde murmuro esse poema.
equilíbrio do corpo enquanto
âncora ou contrapeso
os pés pisam sem que os olhos
vejam / os braços lá e cá dando
senso e dando sentido
(há que se confiar em quem vai
à frente e proteger o quanto possível
quem segue na retaguarda)
todas as montanhas destas terras
desde aqui até lá adiante
vinícius já conquistou todas elas
(é com confiança que se exercita
o amor entre os homens: a passos
firmes e gotas de suor na lapela)
o íngreme nos exige experiência
: saber subir como com a insistência
de quem busca deus entre as nuvens
(do alto o mundo parece perfeito
do alto as distâncias se minimizam
do alto, lado a lado com meu irmão)
o íngreme nos exige experiência
: saber descer como quem procura
água e evita a todo custo a queda
porque apesar dos montes fomos
feitos em planície, ao lado do
ribeirão, de onde murmuro esse poema.
não faz muito a tarde incendiava
as plantas as gatas meu cabelo
despenteado os livros na estante
e esse retrato de ernesto el che
e essa nossa senhora de nazaré
e esse quadro que ligia bordou
quando tinha dez anos e essa
bandeira da palestina que urda
me trouxe como um amuleto.
era de novo um fim de dia de
novo aquela pequena morte
dos dias de novo e de novo
aquele nó na garganta aquele
momento de dizer saudade de
dizer que tenho medo de dizer
que não tenho o impulso de saltar
por essa janela que não tenho
o impulso de escrever mais um
poema para assumir de novo que
tenho medo de novo que tenho
saudade que não tenho o impulso
de saltar pela janela que não tenho
cara para escrever mais um poema
- porque todo poema é um grito de vida
e eu não tenho tido coragem.
as plantas as gatas meu cabelo
despenteado os livros na estante
e esse retrato de ernesto el che
e essa nossa senhora de nazaré
e esse quadro que ligia bordou
quando tinha dez anos e essa
bandeira da palestina que urda
me trouxe como um amuleto.
era de novo um fim de dia de
novo aquela pequena morte
dos dias de novo e de novo
aquele nó na garganta aquele
momento de dizer saudade de
dizer que tenho medo de dizer
que não tenho o impulso de saltar
por essa janela que não tenho
o impulso de escrever mais um
poema para assumir de novo que
tenho medo de novo que tenho
saudade que não tenho o impulso
de saltar pela janela que não tenho
cara para escrever mais um poema
- porque todo poema é um grito de vida
e eu não tenho tido coragem.
e se perderes as palavras te restarão
as vírgulas e os sinais de pontuação;
te restarão as poças de chuva e as l
embranças de quando ainda era ve
rão e tu as tinhas todas, uma por u
ma, refletindo teus dizeres - rabisca
vas num caderninho, lembras? - e a
s folhas em branco te dirão que per
deste o tom do dizer ou um assunto
que valesse a pena, perdeste aquilo
que alimenta o poema e que não sa
bes direito o que é. se perderes as p
alavras restarão os silêncios, o ronro
nar dos gatos, teu reflexo no espelho.
as vírgulas e os sinais de pontuação;
te restarão as poças de chuva e as l
embranças de quando ainda era ve
rão e tu as tinhas todas, uma por u
ma, refletindo teus dizeres - rabisca
vas num caderninho, lembras? - e a
s folhas em branco te dirão que per
deste o tom do dizer ou um assunto
que valesse a pena, perdeste aquilo
que alimenta o poema e que não sa
bes direito o que é. se perderes as p
alavras restarão os silêncios, o ronro
nar dos gatos, teu reflexo no espelho.
a tarde de sexta com andré
como se afeto & história re
sumissem a existência.
amanhã gabriel tá aqui com
a família: faremos planos de
carnaval e ouviremos o
futuro.
despertei num sábado obscuro
que segue - como todo santo
dia - ignorando quem me falta.
mês que vem abraço meu pai
- sempre uma despedida - e
de cima de alguma montanha direi
a vinícius que do alto o mundo é
quase perfeito, mas que os sába
dos são essa mistura de tristeza
e ruína.
sempre uma mistura de tristeza
e ruína.
como se afeto & história re
sumissem a existência.
amanhã gabriel tá aqui com
a família: faremos planos de
carnaval e ouviremos o
futuro.
despertei num sábado obscuro
que segue - como todo santo
dia - ignorando quem me falta.
mês que vem abraço meu pai
- sempre uma despedida - e
de cima de alguma montanha direi
a vinícius que do alto o mundo é
quase perfeito, mas que os sába
dos são essa mistura de tristeza
e ruína.
sempre uma mistura de tristeza
e ruína.
não há tempo para o amor
nem nunca houve - escuta,
joão, pega aqui a linha e a
agulha para cerzir esse bu
raco no teu peito. não há t
empo para o amor não há
proximidade possível - são
olhares vozes toques de d
edo na tela fria. mas quem
diria (quem diria) que apes
ar das agruras todas contr
a as quais não há fuga ou
prece o amor, joão, não só
te rói como (quem diria) re
acontece.
nem nunca houve - escuta,
joão, pega aqui a linha e a
agulha para cerzir esse bu
raco no teu peito. não há t
empo para o amor não há
proximidade possível - são
olhares vozes toques de d
edo na tela fria. mas quem
diria (quem diria) que apes
ar das agruras todas contr
a as quais não há fuga ou
prece o amor, joão, não só
te rói como (quem diria) re
acontece.
ninguém entendeu
nem os guardas os
policiais os milicos
das botas mijadas
ninguém entendeu
nem os compradores
de ouro as vendedoras
de roupas os catadores
de lixo
tampouco se percebeu
nas linhas ariscas dos
sismógrafos
ou se falou disso nas
linhas submarinas dos
telégrafos
quando um abraço parou
a cidade
para dois corações
conversarem de perto.
nem os guardas os
policiais os milicos
das botas mijadas
ninguém entendeu
nem os compradores
de ouro as vendedoras
de roupas os catadores
de lixo
tampouco se percebeu
nas linhas ariscas dos
sismógrafos
ou se falou disso nas
linhas submarinas dos
telégrafos
quando um abraço parou
a cidade
para dois corações
conversarem de perto.
eu já coube inteiro no teu
abraço forte - se fecho os
olhos, sinto as cócegas
sinto o cheiro de tua barba.
já te invejei os olhos azuis,
a obstinação operária
- esposa, filhos, casa -
embora tenha te copiado
no cigarro e na cachaça
- aprendemos os dois a
andar em linha reta, pai,
apesar de tanta fumaça.
aprendi a chorar contigo
aprendi a sorrir contigo
sei de pássaros e outros
bichos, sinto a hora da
trovoada
embora tenha me mantido
longe da fábrica, embora
não tenha feito família,
embora só tenha a escrita
por morada
te carrego nesse meu peito
fraco dizendo que sinto tua
falta talvez desde o nascimento,
mas sempre é tempo, pai,
sempre é tempo de a gente
voltar pra estrada, de a gente
dizer que se ama, de a gente
fazer do que foi melhor do
que o que está por vir
porque toda história nasce
sempre inacabada - a tua
mão na minha, teu rosto no
meu, as cócegas da tua barba.
abraço forte - se fecho os
olhos, sinto as cócegas
sinto o cheiro de tua barba.
já te invejei os olhos azuis,
a obstinação operária
- esposa, filhos, casa -
embora tenha te copiado
no cigarro e na cachaça
- aprendemos os dois a
andar em linha reta, pai,
apesar de tanta fumaça.
aprendi a chorar contigo
aprendi a sorrir contigo
sei de pássaros e outros
bichos, sinto a hora da
trovoada
embora tenha me mantido
longe da fábrica, embora
não tenha feito família,
embora só tenha a escrita
por morada
te carrego nesse meu peito
fraco dizendo que sinto tua
falta talvez desde o nascimento,
mas sempre é tempo, pai,
sempre é tempo de a gente
voltar pra estrada, de a gente
dizer que se ama, de a gente
fazer do que foi melhor do
que o que está por vir
porque toda história nasce
sempre inacabada - a tua
mão na minha, teu rosto no
meu, as cócegas da tua barba.
nenhuma palavra dita
no dia de hoje - talvez
nenhuma a ser dita até
o anoitecer : quem sabe
o que pode acontecer
quando se acostuma
a engolir palavras. digo
bom dia para minhas
gatas e não espero que
respondam, reclamo de
uma ausência e não es
pero que tu saibas,
lembro
de quando pensei que
o pai fosse me contar
tudo o que não havia
dito
mas a radioterapia.
há o câncer que surge
nas células e o que não
se dissolve na água fria.
no dia de hoje - talvez
nenhuma a ser dita até
o anoitecer : quem sabe
o que pode acontecer
quando se acostuma
a engolir palavras. digo
bom dia para minhas
gatas e não espero que
respondam, reclamo de
uma ausência e não es
pero que tu saibas,
lembro
de quando pensei que
o pai fosse me contar
tudo o que não havia
dito
mas a radioterapia.
há o câncer que surge
nas células e o que não
se dissolve na água fria.
(um poema para Felipe Pauluk)
olha felipe, voltei pros trilhos
não te falei porque nem tudo
que se tem pra dizer se diz
embora aquela vez tu tenhas
pegado na minha mão para
atravessar a rua ou os maremotos
todos. te sou agradecido por isso.
vez ou outra penso em te escrever
para te dizer que cada vez que te
leio caio num buraco chamado anos
90
(foi lá que tudo aconteceu, parece
foi lá que nos fizeram, parece
embora saibamos que viemos de
antes).
não sei se alcanço tua cidade para
falar da poesia de samantha da largura
das avenidas da cor da terra das árvores
(faz calor aí? faz frio?)
não sei se alcançaremos o fim de ano
se teus olhos pousarão sobre a praia
se caminharemos a esmo por estas ruas
antigas
como não sei se poderei te mostrar
meu carinho ao pai que é também filho
e dizer felipe, o feijão tá pronto, vem comer.
olha felipe, voltei pros trilhos
não te falei porque nem tudo
que se tem pra dizer se diz
embora aquela vez tu tenhas
pegado na minha mão para
atravessar a rua ou os maremotos
todos. te sou agradecido por isso.
vez ou outra penso em te escrever
para te dizer que cada vez que te
leio caio num buraco chamado anos
90
(foi lá que tudo aconteceu, parece
foi lá que nos fizeram, parece
embora saibamos que viemos de
antes).
não sei se alcanço tua cidade para
falar da poesia de samantha da largura
das avenidas da cor da terra das árvores
(faz calor aí? faz frio?)
não sei se alcançaremos o fim de ano
se teus olhos pousarão sobre a praia
se caminharemos a esmo por estas ruas
antigas
como não sei se poderei te mostrar
meu carinho ao pai que é também filho
e dizer felipe, o feijão tá pronto, vem comer.
eu bem sei que tá osso viver tá osso
dormir tá osso comer - e o preço do
feijão? - tá difícil lembrar de quando
era tudo difícil, apenas, como se ago
ra - bem, aqui estamos, sabemos, co
mo se doêssemos pra mais ou pra m
enos, não importa - estamos exatam
ente aqui a portas fechadas. eu sei b
em como tem sido duro falar de futu
ro falar de aluguéis e que não existe
espaço para poemas de amor e que
não existe espaço para o amor e qu
e vamos nos condenando e morren
do aos poucos. eu sei bem, eu sei b
dormir tá osso comer - e o preço do
feijão? - tá difícil lembrar de quando
era tudo difícil, apenas, como se ago
ra - bem, aqui estamos, sabemos, co
mo se doêssemos pra mais ou pra m
enos, não importa - estamos exatam
ente aqui a portas fechadas. eu sei b
em como tem sido duro falar de futu
ro falar de aluguéis e que não existe
espaço para poemas de amor e que
não existe espaço para o amor e qu
e vamos nos condenando e morren
do aos poucos. eu sei bem, eu sei b
uma vez fui bêbado à ópera
assistir o ouro do reno, de
wagner, no teatro municipal
de são paulo - enquanto su
bíamos a escadaria um mora
dor de rua apregoava a chu
va que viria e lavaria tudo das
almas das pessoas às tristezas
do mundo. dormi, acordei, e
tive tempo de ver as cinco ha
rpas dispostas ao fundo do
palco nos minutos finais do
espetáculo. que desperdício,
pensei, cinco harpas para tão
pouco tempo; e as harpistas
e o nosso tempo de especta
dores. talvez já tivesse chovi
do, talvez as pessoas estives
sem curadas de suas dores e
o mundo fosse afinal outro
(não era). saí do municipal
com a boca seca e dor de ca
beça pensando que não havi
a entendido merda nenhuma
de wagner, do ouro do reno,
da riqueza do municipal e da
arrogância de seus espectad
ores. lembrei disso porque es
tou ouvindo a ária da rainha
da noite, de mozart, para rec
uperar uma imagem da infân
cia, quando ouvia o disco do
filme de alan parker no carpe
te da sala de casa - era de ligia
aquele disco - e eu não sabia
o que aquela mulher dizia nos
agudos e agudíssimos daquele
trecho que vocês bem sabem q
ual é. agora vi que existe a pos
sibilidade de saber o que aquel
a mulher cantava com tanta an
gústia, mas deus me livre de d
esvendar mais um mistério da
vida quando todos os outros j
á estão expostos: o amor e a f
alta dele, a morte de amigos q
ueridos, as cartas que se acum
ulam, as feridas que lambo soz
inho. deus que me livre mais u
ma descoberta, que já não tenh
ho podido lidar com o que desc
ubro e nem quero saber de mais
nada.
assistir o ouro do reno, de
wagner, no teatro municipal
de são paulo - enquanto su
bíamos a escadaria um mora
dor de rua apregoava a chu
va que viria e lavaria tudo das
almas das pessoas às tristezas
do mundo. dormi, acordei, e
tive tempo de ver as cinco ha
rpas dispostas ao fundo do
palco nos minutos finais do
espetáculo. que desperdício,
pensei, cinco harpas para tão
pouco tempo; e as harpistas
e o nosso tempo de especta
dores. talvez já tivesse chovi
do, talvez as pessoas estives
sem curadas de suas dores e
o mundo fosse afinal outro
(não era). saí do municipal
com a boca seca e dor de ca
beça pensando que não havi
a entendido merda nenhuma
de wagner, do ouro do reno,
da riqueza do municipal e da
arrogância de seus espectad
ores. lembrei disso porque es
tou ouvindo a ária da rainha
da noite, de mozart, para rec
uperar uma imagem da infân
cia, quando ouvia o disco do
filme de alan parker no carpe
te da sala de casa - era de ligia
aquele disco - e eu não sabia
o que aquela mulher dizia nos
agudos e agudíssimos daquele
trecho que vocês bem sabem q
ual é. agora vi que existe a pos
sibilidade de saber o que aquel
a mulher cantava com tanta an
gústia, mas deus me livre de d
esvendar mais um mistério da
vida quando todos os outros j
á estão expostos: o amor e a f
alta dele, a morte de amigos q
ueridos, as cartas que se acum
ulam, as feridas que lambo soz
inho. deus que me livre mais u
ma descoberta, que já não tenh
ho podido lidar com o que desc
ubro e nem quero saber de mais
nada.
em 1994 eu não abri a porta
pro pai entrar em casa e disso
resultaram dez anos de casa
sem pai - a culpa deve ter sido
minha - e a sensação estranha
de que o pai existia mas tinha
ido embora sem despedida
em 2001 enquanto meus
amigos nos despedíamos
de três anos de internato
(choramos dores que ainda
não tínhamos, inauguramos
uma dor nova aquele dia)
eu descobria que se despedir
dói mas serve pra escrever
hoje eu queria que esse dia
durasse o tanto daqueles dez
anos sem o pai, o tanto daqueles
três anos de poemas, violões
e beijos de língua sob as árvores
na praça central da escola
evangélica
mesmo que disso resultasse
escrever mais nada
porque o texto pode esperar
porque o texto pode esperar
porque o texto pode esperar
enquanto a vida se alarga.
pro pai entrar em casa e disso
resultaram dez anos de casa
sem pai - a culpa deve ter sido
minha - e a sensação estranha
de que o pai existia mas tinha
ido embora sem despedida
em 2001 enquanto meus
amigos nos despedíamos
de três anos de internato
(choramos dores que ainda
não tínhamos, inauguramos
uma dor nova aquele dia)
eu descobria que se despedir
dói mas serve pra escrever
hoje eu queria que esse dia
durasse o tanto daqueles dez
anos sem o pai, o tanto daqueles
três anos de poemas, violões
e beijos de língua sob as árvores
na praça central da escola
evangélica
mesmo que disso resultasse
escrever mais nada
porque o texto pode esperar
porque o texto pode esperar
porque o texto pode esperar
enquanto a vida se alarga.
a primeira vez que pisei os pés na rua de casa:
uma rua da capital - a rua do príncipe, por onde
passavam os cortejos fúnebres até o cemitério
que não existe mais - os mortos ainda hão de
derrubar essa ponte que lhes tirou o sossego
e forçou sua mudança - em que tantas vezes
caminhei com Luiza, que me falava de o centro
ser o espaço mais bonito dessa cidade porque
é aqui que caminha o povo
- como Fábio, o viciado que faz tempo não vejo e que
deve ter sido enterrado como indigente numa cova
rasa; Fábio foi quem primeiro me estendeu as mãos
primeiro para pedir trocado, depois para me perguntar
se eu estava bem - os olhos tristes de quem não vê
futuro, a vontade que eu tinha de ser livre como ele;
ou isso, ou voltou para casa, o que dá no mesmo
porque há retornos que matam, e a mim me mataria
percorrer aquelas mesmas ruas. mas disso não vale
a pena falar.
os trajetos: cruzar o centro para encontrar André,
cruzar o centro para encontrar Rodrigo, cruzar
o centro para encontrar João naquele mesmo café
onde somos mal atendidos e onde nos servem como
se nos prestassem um favor
(outro dia, toquei o braço de Rodrigo e fazia tanto
que não o tocava; de André nunca mais soube,
João me trouxe mais daquele doce de jaca
e bananas vermelhas; falamos de literatura)
hoje o restaurante de seu Itamar estava fechado
então fui pedir a marmita do Carioca - seu Itamar e
o Carioca são povo e estão no centro desde antes
de Dias Velho aportar por aqui, eles me disseram
(são piratas, eles; por isso esse ar salino).
o vendedor de raquetes contra mosquitos e agulhas
de fogão, seu pregão anasalado, sua fala pausada
- se vende droga ou abortivos, nunca saberemos -
a mesma rua em que me escondi com Manu daquela
chuva de verão (um calor medonho àquela hora da
noite) e por onde caminhei com Gustavo fazendo
confundir lágrimas e chuva no rosto em nossa última
despedida; no sábado fez sol, então Caio e eu fomos
à praia antes do voo; escondi minhas lágrimas
no mar porque se Caio me visse chorando talvez
se partisse ao meio só para me fazer rir;
Maffeis não caminhou por essas ruas comigo,
mas quando isso acontecer terá sido como se
sempre;
Matheus voltou da Alemanha mas não alcançou
a minha rua por causa da pandemia;
Milton não alcançou a minha rua
porque somos dois fodidos
e eu faço questão de pagar suas passagens;
Bruna vinha, e ainda virá;
outro dia ofereci a casa para Camila;
Rafa vinha também;
Ithalo disse que no ano que vem;
quando Vinicius trouxe aqui o pai e a mãe
nunca me senti tão orgulhoso de ter uma
casa onde entrarem, se sentarem, almoçarmos
e depois eu fui grande dizendo a Vinicius para
dobrar à direita e à esquerda enquanto passeávamos
de carro por essas ruas - eu que sempre ouvi à direita
e à esquerda de meu irmão porque ele sabe todos os
caminhos e sabe que dói e sabe onde dói só não
tem jeito com as palavras;
Ligia vem também, me disse;
como foi difícil aprender a andar sozinho onde
caminhávamos juntos: eu nunca sei olhar
o caminho, por isso esbarro nas pessoas,
por isso deixo de cumprimentar os conhecidos
: cato poemas na sujeira da rua, penso num romance
novo encarando um rato gordo (come melhor do que eu,
parece); compro cigarros na rua de cima, compro
cachaça para meu Exu ao lado de onde compro incensos;
não quero mais sair de casa enquanto não souber
que nos encontraremos todos, e porque saudade
é um prato insosso que nos faz doer o coração
e chorar de saudade enquanto o relógio tic-tac
esmagando o peito
enquanto salivo ao dizer teu nome.
passavam os cortejos fúnebres até o cemitério
que não existe mais - os mortos ainda hão de
derrubar essa ponte que lhes tirou o sossego
e forçou sua mudança - em que tantas vezes
caminhei com Luiza, que me falava de o centro
ser o espaço mais bonito dessa cidade porque
é aqui que caminha o povo
- como Fábio, o viciado que faz tempo não vejo e que
deve ter sido enterrado como indigente numa cova
rasa; Fábio foi quem primeiro me estendeu as mãos
primeiro para pedir trocado, depois para me perguntar
se eu estava bem - os olhos tristes de quem não vê
futuro, a vontade que eu tinha de ser livre como ele;
ou isso, ou voltou para casa, o que dá no mesmo
porque há retornos que matam, e a mim me mataria
percorrer aquelas mesmas ruas. mas disso não vale
a pena falar.
os trajetos: cruzar o centro para encontrar André,
cruzar o centro para encontrar Rodrigo, cruzar
o centro para encontrar João naquele mesmo café
onde somos mal atendidos e onde nos servem como
se nos prestassem um favor
(outro dia, toquei o braço de Rodrigo e fazia tanto
que não o tocava; de André nunca mais soube,
João me trouxe mais daquele doce de jaca
e bananas vermelhas; falamos de literatura)
hoje o restaurante de seu Itamar estava fechado
então fui pedir a marmita do Carioca - seu Itamar e
o Carioca são povo e estão no centro desde antes
de Dias Velho aportar por aqui, eles me disseram
(são piratas, eles; por isso esse ar salino).
o vendedor de raquetes contra mosquitos e agulhas
de fogão, seu pregão anasalado, sua fala pausada
- se vende droga ou abortivos, nunca saberemos -
a mesma rua em que me escondi com Manu daquela
chuva de verão (um calor medonho àquela hora da
noite) e por onde caminhei com Gustavo fazendo
confundir lágrimas e chuva no rosto em nossa última
despedida; no sábado fez sol, então Caio e eu fomos
à praia antes do voo; escondi minhas lágrimas
no mar porque se Caio me visse chorando talvez
se partisse ao meio só para me fazer rir;
Maffeis não caminhou por essas ruas comigo,
mas quando isso acontecer terá sido como se
sempre;
Matheus voltou da Alemanha mas não alcançou
a minha rua por causa da pandemia;
Milton não alcançou a minha rua
porque somos dois fodidos
e eu faço questão de pagar suas passagens;
Bruna vinha, e ainda virá;
outro dia ofereci a casa para Camila;
Rafa vinha também;
Ithalo disse que no ano que vem;
quando Vinicius trouxe aqui o pai e a mãe
nunca me senti tão orgulhoso de ter uma
casa onde entrarem, se sentarem, almoçarmos
e depois eu fui grande dizendo a Vinicius para
dobrar à direita e à esquerda enquanto passeávamos
de carro por essas ruas - eu que sempre ouvi à direita
e à esquerda de meu irmão porque ele sabe todos os
caminhos e sabe que dói e sabe onde dói só não
tem jeito com as palavras;
Ligia vem também, me disse;
como foi difícil aprender a andar sozinho onde
caminhávamos juntos: eu nunca sei olhar
o caminho, por isso esbarro nas pessoas,
por isso deixo de cumprimentar os conhecidos
: cato poemas na sujeira da rua, penso num romance
novo encarando um rato gordo (come melhor do que eu,
parece); compro cigarros na rua de cima, compro
cachaça para meu Exu ao lado de onde compro incensos;
não quero mais sair de casa enquanto não souber
que nos encontraremos todos, e porque saudade
é um prato insosso que nos faz doer o coração
e chorar de saudade enquanto o relógio tic-tac
esmagando o peito
enquanto salivo ao dizer teu nome.
repara que se tens as mãos
geladas e as pões na panela
quente demorará para que teu
cérebro compreenda, por conta
do amortecimento que causa o
frio, que dói e que esta dor é um
alerta que te evita queimaduras
mais graves. Poderias ter repara
do na quentura da panela, porém
o gelo das mãos te amorteceu o
pressentimento e agora que já
passa seu efeito tens dor e alcan
ças pensar que assim é quando
amas - por descuido ou acidente.
geladas e as pões na panela
quente demorará para que teu
cérebro compreenda, por conta
do amortecimento que causa o
frio, que dói e que esta dor é um
alerta que te evita queimaduras
mais graves. Poderias ter repara
do na quentura da panela, porém
o gelo das mãos te amorteceu o
pressentimento e agora que já
passa seu efeito tens dor e alcan
ças pensar que assim é quando
amas - por descuido ou acidente.
talvez de manuel tenha restado n
a ossada aquela dentadura que c
hegava antes e para quem visse
carlos talvez não houvesse novid
ade posto que já era magro. de m
eus amigos ninguém vai nunca e
ncontrar esqueleto pois os proíbo
de morrer antes de mim e mesmo
assim se me encontrassem fóssil
talvez se percebesse esse osso a
gudo acima dos olhos ou meu es
porão calcâneo ou meu coração
ossudo porque nem tudo são mús
culos e pra amar é preciso tutano.
a ossada aquela dentadura que c
hegava antes e para quem visse
carlos talvez não houvesse novid
ade posto que já era magro. de m
eus amigos ninguém vai nunca e
ncontrar esqueleto pois os proíbo
de morrer antes de mim e mesmo
assim se me encontrassem fóssil
talvez se percebesse esse osso a
gudo acima dos olhos ou meu es
porão calcâneo ou meu coração
ossudo porque nem tudo são mús
culos e pra amar é preciso tutano.
muito mais que líquidos e lençóis
gostos suores gemidos bemóis
um querer desse requer outro mundo
outras tardes outros ventos nós também
outros. que fôssemos outros nossos
passos nossos olhos nossos bocejos
virtudes cansaços e que fossem outros
os livros que lemos e outro o idioma
em que escrevemos poemas antes de
dormir antes de acordar antes e depois
da tarde antes e depois do amor antes
e depois de ti. mas o mundo ainda é
esse como segue igual este país esta
sua gente nossos sotaques distantes
e é sempre tarde para o amor é sempre
tarde quando nos olhamos no espelho
e pensamos como seria afinal se
fôssemos outros mas isso não é
pergunta que se faça a essa hora
da noite nem a essa altura da vida.
gostos suores gemidos bemóis
um querer desse requer outro mundo
outras tardes outros ventos nós também
outros. que fôssemos outros nossos
passos nossos olhos nossos bocejos
virtudes cansaços e que fossem outros
os livros que lemos e outro o idioma
em que escrevemos poemas antes de
dormir antes de acordar antes e depois
da tarde antes e depois do amor antes
e depois de ti. mas o mundo ainda é
esse como segue igual este país esta
sua gente nossos sotaques distantes
e é sempre tarde para o amor é sempre
tarde quando nos olhamos no espelho
e pensamos como seria afinal se
fôssemos outros mas isso não é
pergunta que se faça a essa hora
da noite nem a essa altura da vida.
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já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...
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eu tinha prometido parar com isso de falar do meu pai morto, de três ou quatro nomes de gente que nunca se viu e que parece que existem mesm...
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já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...
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eu tinha quantos anos e quantas vezes vou escrever sobre isso, mas fazia sol e viriam as pessoas viriam, mas elas não vinham e havia bolo e ...