A linguagem está morta!
Já não há mais como explicar
o que carece de sentido:
a infância degolada,
a comida atrasada
e aquele teu novo emprego
que em nada se difere
do antigo.
Abolimos a linguagem
para que não peçamos desculpas
(nem tampouco façamos justiça)
aos jovens mortos por tiro,
vítimas do seletivo-tão-antigo
jogo da cor
[preto, moreno, bandido]?
Como for!
Evitamos a palavra
para que se impeça o reparo
aos mortos das propagandas,
às vítimas da eterna dança
da velocidade e do carro.
Engolimos a palavra
para que não hajam mais feridos
entre aqueles que encontram com Deus
através de seus próprios livros,
através da palavra cantada.
Já não é mais possível dizer
se já não se pode viver:
de agora em diante, grunhidos!
de agora em diante, mugidos!
Ou o definitivo silêncio
- que assuma com todo seu peso
o controle de nosso desprezo,
a falência da palavra.
(...)
Essas nossas mãos sujas de sangue,
lavaremos todos
na mesma fonte
com a surpresa trivial
de quem sabe que é culpado
e carrega, consigo e calado,
o brutal peso da morte,
a banalidade da sorte,
toda arrogância do mau.
Somos todos culpados!
Todos os dias, todas as férias,
todo retorno de feriado;
de manhãzinha,
quando a tarde finda,
nas noites de lua-cheia:
não seremos perdoados.
4 de mai. de 2015
São 3 anos de
estágio probatório,
mas logo chego a seis;
logo chego aos dezesseis,
e em breve aos 60 anos
- para então começar
a fazer planos,
começar a viver
e a desenganar
essa vida inteira
de enganos.
(...)
Estudei muito
pra chegar até aqui.
Aqui onde?
Exatamente aqui.
Exatamente onde?
Aqui, bem aqui!
Mas onde?
Aqui, porra,
não tá vendo?
Não enxerga o meu
ascenso e minha
postura social?
Olha aqui o meu diploma,
olha aqui o carteiraço:
graduado e pós-graduado
em arrogância colonial.
(...)
Meu avô trabalhou aqui,
assim como meu pai.
Eu também trabalho aqui,
mas pra sustentar os meus filhos,
que logo terão seus filhos
e todos trabalharão
nesse mesmo tear antigo,
sob a poeira da fiação,
alimentando os filhos dos
filhos e os pais dos pais
do meu patrão.
(...)
Vou viver da minha arte!
Ser vendido de parte em parte
para garantir o meu nome,
para garantir o meu pão.
E esperar que o aluguel seja pago
com o que é suor, é trabalho,
mas também pode ser chamado
simplesmente de inspiração.
(...)
E assim a vida caminha
calma e serenamente
evitando qualquer desconforto
pra quem
r-e-p-e-t-i-d-a-m-e-n-t-e
se mente.
estágio probatório,
mas logo chego a seis;
logo chego aos dezesseis,
e em breve aos 60 anos
- para então começar
a fazer planos,
começar a viver
e a desenganar
essa vida inteira
de enganos.
(...)
Estudei muito
pra chegar até aqui.
Aqui onde?
Exatamente aqui.
Exatamente onde?
Aqui, bem aqui!
Mas onde?
Aqui, porra,
não tá vendo?
Não enxerga o meu
ascenso e minha
postura social?
Olha aqui o meu diploma,
olha aqui o carteiraço:
graduado e pós-graduado
em arrogância colonial.
(...)
Meu avô trabalhou aqui,
assim como meu pai.
Eu também trabalho aqui,
mas pra sustentar os meus filhos,
que logo terão seus filhos
e todos trabalharão
nesse mesmo tear antigo,
sob a poeira da fiação,
alimentando os filhos dos
filhos e os pais dos pais
do meu patrão.
(...)
Vou viver da minha arte!
Ser vendido de parte em parte
para garantir o meu nome,
para garantir o meu pão.
E esperar que o aluguel seja pago
com o que é suor, é trabalho,
mas também pode ser chamado
simplesmente de inspiração.
(...)
E assim a vida caminha
calma e serenamente
evitando qualquer desconforto
pra quem
r-e-p-e-t-i-d-a-m-e-n-t-e
se mente.
Vamos despertar
antes que inicie
o pesadelo:
(quem sabe se
dando as mãos
não criamos
aqui um freio
pra parar
o que não devia
jamais ter começado
mas já se encontra
no meio?)
Vamos evitar
cair somente
em devaneio
e pisar firme
com os pés:
passo-a-passo,
mas passo
de pé inteiro!
Porque nisso de
andar descalço
a gente ainda se
machuca!
Nisso de andar no alto,
a gente cai de forma
abrupta
e nunca vai ter certeza
do que é sonho,
do que é luta,
do que é nuvem de
fumaça
e do que parece teoria
e é trapaça.
antes que inicie
o pesadelo:
(quem sabe se
dando as mãos
não criamos
aqui um freio
pra parar
o que não devia
jamais ter começado
mas já se encontra
no meio?)
Vamos evitar
cair somente
em devaneio
e pisar firme
com os pés:
passo-a-passo,
mas passo
de pé inteiro!
Porque nisso de
andar descalço
a gente ainda se
machuca!
Nisso de andar no alto,
a gente cai de forma
abrupta
e nunca vai ter certeza
do que é sonho,
do que é luta,
do que é nuvem de
fumaça
e do que parece teoria
e é trapaça.
27 de fev. de 2015
eu me quero assim
todo eu,
todo meu
e me quero assim
comigo.
eu te quero assim
toda tu,
tão tua
pra que sejas feliz
contigo.
eu nos quero assim
tão nós mesmos,
com cada um na sua:
de lua em lua
eu me permito
te querer livre
eu mesmo livre
me ter contigo
te ter comigo
pra que vivamos
a plenitude
dessa
liberdade nua.
todo eu,
todo meu
e me quero assim
comigo.
eu te quero assim
toda tu,
tão tua
pra que sejas feliz
contigo.
eu nos quero assim
tão nós mesmos,
com cada um na sua:
de lua em lua
eu me permito
te querer livre
eu mesmo livre
me ter contigo
te ter comigo
pra que vivamos
a plenitude
dessa
liberdade nua.
23 de jan. de 2015
Cheiro de povo.
"Prefiro cheiro de cavalo do que cheiro de povo"
João Baptista Figueiredo
Desculpa, moço
se o cheiro que
emana de mim
lhe desagrada
o seu tão fino
nariz:
é que eu tava
trabalhando
é que eu tava
descansando
é que eu tava
ali do lado
fazendo nada
de errado
e a polícia
chegou em mim.
Daí que é assim:
a gente sua,
a gente se esforça,
a gente às vezes
é o cavalo
e às vezes
é a carroça.
Então que não
dá pra disfarçar
isso que pode
ser fedor
só com perfume
barato.
A gente fede,
moço,
eu sei.
Mas não é cheiro
de rato, não:
a gente emana
muito de sonho
perdido,
muito de sonho
estragado,
muito de noite
acordada,
muito de dia
nublado.
E esse cheiro
que te faz
torcer o rosto,
moço,
não é por eu ser
preto,
não é por eu ser
branco, se
às vezes sou
angolano
e às vezes
japonês
- mas o meu cheiro,
moço,
não tem a ver com
etnia,
não se explica
na geografia
ou não sei:
talvez se a gente
levar em conta
essa nossa necessidade
de sempre pagar mais
caro
qual seja for o valor
da compra.
Não dá pra ter cheiro
de flor se a gente
vive sendo espinho;
não dá muito pra
respirar
quando se
vive apertado
e sozinho.
Daí que o seu
problema com
o meu cheiro
é talvez um problema
unicamente seu:
porque isso que exalo
é cheiro de gente,
de povo.
Me desculpa se até
aqui não disse
nada de novo,
mas preciso ir
pra labuta
novamente.
Só um recado
que talvez lhe
sirva:
a gente fede desse jeito
é porque a gente luta:
todo dia de manhã
até quase a noitinha,
virando a madrugada
quase até de manhãzinha.
E se ouvir dizer de nós,
que andamos perfumados,
é que a luta de que se fala
acabou virando de lado:
foi pro lado dos livros,
da teoria importada,
dos diálogos compridos,
da verdade imaginada.
Por isso, moço,
lhe digo
que esse cheiro
de povo
(alguns dizem de mendigo),
é original e é nosso,
tão américo-latino
que não espanto se o moço
não quiser sentar comigo
pra escutar meu endosso,
pra aguentar esse osso,
esse meu cheiro de poço,
esse meu cheiro divino.
16 de jan. de 2015
Me roubaram teus poemas
e os olhos com que te via
em preto e branco.
Te dizia que me deste
coragem e humanidade
para cruzar a Chacarita
e sua pobreza tão digna;
que saudade se sente
porque se ama e que
a vida não é somente feita
de distâncias,
sino también de
reencontros.
Te encontro!
Nas mensagens dos muros,
no falar dessa gente,
nos olhos das crianças que
me vêm vender cigarros.
Te encontro nestes
invernos matinais,
nos silêncios dominicais
e nas montanhas que se
levantam adiante.
Já não passará mais
um domingo em que me
acorde assustado.
Pois quando suspirares
me crendo distante de mais,
já poderás me mirar:
estarei do teu lado.
Cochabamba, 03/01/2015.
e os olhos com que te via
em preto e branco.
Te dizia que me deste
coragem e humanidade
para cruzar a Chacarita
e sua pobreza tão digna;
que saudade se sente
porque se ama e que
a vida não é somente feita
de distâncias,
sino también de
reencontros.
Te encontro!
Nas mensagens dos muros,
no falar dessa gente,
nos olhos das crianças que
me vêm vender cigarros.
Te encontro nestes
invernos matinais,
nos silêncios dominicais
e nas montanhas que se
levantam adiante.
Já não passará mais
um domingo em que me
acorde assustado.
Pois quando suspirares
me crendo distante de mais,
já poderás me mirar:
estarei do teu lado.
Cochabamba, 03/01/2015.
15 de jan. de 2015
o emaranhado
dos teus cabelos
descomplicado:
são tudo pêlos
pro meu desejo
condicionado
por este beijo
do teu café
no meu cigarro.
amargo.
já foram dias
de despedida
(olhos fechados);
hoje é encontro,
é desencontro,
é te ver ir
sem ter chegado.
mapa da mina,
rede de pesca,
piano indie
descompassado:
cadê teu rosto,
cadê teu cheiro -
eu te pergunto,
eu me pergunto
querendo mais
do lado-a-lado.
(eu digo)
foda-se o
imprevisto e o
calculado:
estarás perto
mesmo distante,
aqui do lado.
dos teus cabelos
descomplicado:
são tudo pêlos
pro meu desejo
condicionado
por este beijo
do teu café
no meu cigarro.
amargo.
já foram dias
de despedida
(olhos fechados);
hoje é encontro,
é desencontro,
é te ver ir
sem ter chegado.
mapa da mina,
rede de pesca,
piano indie
descompassado:
cadê teu rosto,
cadê teu cheiro -
eu te pergunto,
eu me pergunto
querendo mais
do lado-a-lado.
(eu digo)
foda-se o
imprevisto e o
calculado:
estarás perto
mesmo distante,
aqui do lado.
16 de dez. de 2014
Porque sim não é resposta!
Depois de ter compartilhado sua escrita lá no blog, segue aqui a edição em livro para download!
Link para download do livro.
Link para a versão e-book.
15 de nov. de 2014
Meu endereço é de onde
ouves sair esta canção
que relembra uma infância
cinza-colorida,
tal qual este dia de vento
e de recordações.
Meu endereço, se quiseres anotar,
está inscrito no verde-sonho
desta mata que acolhe
e protege;
onde chegam as cartas
de gentes distantes
no espaço, no tempo,
mas sempre bem perto
da cabeça e do coração.
Meu endereço, se te
vale de algo,
é onde os mortos
são recebidos para o jantar,
onde recontamos nossas histórias,
nossas vitórias,
onde nos rimos da vida
e da morte.
Resido exatamente aqui.
Não precisa avisar ao chegar.
ouves sair esta canção
que relembra uma infância
cinza-colorida,
tal qual este dia de vento
e de recordações.
Meu endereço, se quiseres anotar,
está inscrito no verde-sonho
desta mata que acolhe
e protege;
onde chegam as cartas
de gentes distantes
no espaço, no tempo,
mas sempre bem perto
da cabeça e do coração.
Meu endereço, se te
vale de algo,
é onde os mortos
são recebidos para o jantar,
onde recontamos nossas histórias,
nossas vitórias,
onde nos rimos da vida
e da morte.
Resido exatamente aqui.
Não precisa avisar ao chegar.
3 de nov. de 2014
22 de set. de 2014
Terá sempre um delicioso
gosto esquisito
em cada dobra do teu sorriso
quando te rires de que vês em mim.
Estou aqui e não é pra
te falar de antes.
Porque ontem é um
lugar esquisito, perdido
por entre os livros que
não se acabaram de ler.
É evitando o amanhecer que
se impede o dia que rasteja?
Não carregarei tuas malas,
nem tampouco descerei escadas;
já não saberemos mais
por onde andamos.
Porque planos se fazem
somente enquanto se almeja
que o amanhã que tanto se deseja
chegue somente depois de amanhã.
gosto esquisito
em cada dobra do teu sorriso
quando te rires de que vês em mim.
Estou aqui e não é pra
te falar de antes.
Porque ontem é um
lugar esquisito, perdido
por entre os livros que
não se acabaram de ler.
É evitando o amanhecer que
se impede o dia que rasteja?
Não carregarei tuas malas,
nem tampouco descerei escadas;
já não saberemos mais
por onde andamos.
Porque planos se fazem
somente enquanto se almeja
que o amanhã que tanto se deseja
chegue somente depois de amanhã.
16 de set. de 2014
Podes te esquecer todas as noites
que no fim há de ventar.
Todo o zêlo com que
empurraste as folhas
prum lugar onde não
sujem as pedras do teu
quintal,
terá sido tudo em vão.
Madrugada de ciclone
e maus agouros,
diz o mapa.
O satélite que orbita
agora em ti
está feliz:
foi-se o tempo de
vagar na escuridão.
que no fim há de ventar.
Todo o zêlo com que
empurraste as folhas
prum lugar onde não
sujem as pedras do teu
quintal,
terá sido tudo em vão.
Madrugada de ciclone
e maus agouros,
diz o mapa.
O satélite que orbita
agora em ti
está feliz:
foi-se o tempo de
vagar na escuridão.
30 de jul. de 2014
3 de jul. de 2014
Porque sim não é resposta.
Porque não também não.
E talvez não funciona.
http://umpoemaso.blogspot.com
Porque não também não.
E talvez não funciona.
http://umpoemaso.blogspot.com
26 de jun. de 2014
9 de abr. de 2014
?!
Todas as palavras guardadas
decantaram
e formaram uma crosta
no fundo de meu
aquário.
As palavras não ditas,
mesmo intranqüilas,
sedimentaram.
E eu, que guardava
cada palavra
bem no fundo do armário,
não pude escutar os
segredos que as palavras
me falavam.
decantaram
e formaram uma crosta
no fundo de meu
aquário.
As palavras não ditas,
mesmo intranqüilas,
sedimentaram.
E eu, que guardava
cada palavra
bem no fundo do armário,
não pude escutar os
segredos que as palavras
me falavam.
+/-
era tão cheia de 9 horas
que nunca chegaria
a 10
e eu
de tantas 9 horas
dela
não era difícil
não ter
cruzeiro
não era difícil
não ter
cruzado
não era difícil
não ter
trocado
as mãos
pelos pés
que nunca chegaria
a 10
e eu
de tantas 9 horas
dela
não era difícil
não ter
cruzeiro
não era difícil
não ter
cruzado
não era difícil
não ter
trocado
as mãos
pelos pés
25 de mar. de 2014
Calmaria
Haverá outra vez sol
depois de tanta tempestade?
Depois de tanto senão
e talvez,
quem sabe a vida se
ajeite numa curva
e se encontre afinal cura
pra tudo que se desfez.
Seja ontem, anteontem:
- Faz uns anos?
- Faz um mês!
depois de tanta tempestade?
Depois de tanto senão
e talvez,
quem sabe a vida se
ajeite numa curva
e se encontre afinal cura
pra tudo que se desfez.
Seja ontem, anteontem:
- Faz uns anos?
- Faz um mês!
13 de mar. de 2014
Balança
O peso das coisas simples
que não têm exatamente
preço
O peso das coisas simples
que não cabem exatamente
aqui
O peso das coisas simples
e a saudade exatamente
dela
O peso das coisas simples
que pesa inteiro sobre
mim
que não têm exatamente
preço
O peso das coisas simples
que não cabem exatamente
aqui
O peso das coisas simples
e a saudade exatamente
dela
O peso das coisas simples
que pesa inteiro sobre
mim
5 de mar. de 2014
Bloco do eu-contigo
Que se unam os corpos
em torno do comum antigo
que não tem exatamente nome
não se sabe exatamente onde.
Que se unam, corpos e vozes
e cantem alegremente, e forte,
canções com autoria e gosto
que nos brilham do coração ao rosto
e que sejamos, somente sejamos.
Onde estamos?
Para fora! Dentro está preenchido.
Para cima e mais alto do que já se
tenha ido.
E adiante, sem pressa ou direção
- o caminho que se faz a esmo, mesmo! -
o caminho que se faz quando se escuta o coração.
Que se unam os corpos
em torno do comum antigo
e gritem a quem tiver ouvidos:
Estamos todos aqui!
Estamos todos aqui como
bem deveria ter sido:
entre mergulhos e girassóis,
cafés, cervejas, bemóis
Unidos.
em torno do comum antigo
que não tem exatamente nome
não se sabe exatamente onde.
Que se unam, corpos e vozes
e cantem alegremente, e forte,
canções com autoria e gosto
que nos brilham do coração ao rosto
e que sejamos, somente sejamos.
Onde estamos?
Para fora! Dentro está preenchido.
Para cima e mais alto do que já se
tenha ido.
E adiante, sem pressa ou direção
- o caminho que se faz a esmo, mesmo! -
o caminho que se faz quando se escuta o coração.
Que se unam os corpos
em torno do comum antigo
e gritem a quem tiver ouvidos:
Estamos todos aqui!
Estamos todos aqui como
bem deveria ter sido:
entre mergulhos e girassóis,
cafés, cervejas, bemóis
Unidos.
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