27 de mar. de 2009

(Silêncio).

— E quanto a nós?
— É isso, horas.
— Isso, só?
— Depende. Pode ser muito, até.

(Silêncio)

— Falo de amor, sabe?
— Amor é muito grande pra isso.
— Pra isso?
— É, pra gente.

(Silêncio)

— Mas tu está apaixonado, pelo menos?
— Não.
— E sexo sem paixão, o que é?
— É isso que acabamos de fazer.
— Seu cretino.

(Silêncio)

— Não entendo. Não me ama nem está apaixonado. Duvido.
— Não te amo e paixão não existe.
— Como assim? Claro que existe. As pessoas se apaixonam.
— Paixão é uma forma irresponsável de estar junto. Pra não dizer que ama, porque não pode ou não consegue, porque soa sério, se diz que está apaixonado. É uma forma de enganar e ser enganado sem precisar assumir isso.
— Isso?
— Isso de ser enganado.
— Não se fica junto de verdade sem amar, tu quer dizer?
— Sim.
— E por que a gente está junto?
— Desde quando?

(Silêncio)

— E quanto ao amor?
— Não sei.
— Não sabe o quê?
— Se existe.
— E se eu te provar.
— Não consegue.
— E se tentar?
— Não precisa.
— Vou embora.
— Fecha a porta, por favor.

(Silêncio).

24 de mar. de 2009

Desberto.

Desberto mora num casebre construído na beira de um barranco onde perto passa um rio longe de todo e qualquer conforto urbano. Ele mais as crianças, sete, a mulher, vez por outra um primo que vem do sítio procurar emprego, acaba ficando, bebe a pinga do Desberto e vai embora sem porra de emprego nenhum e deixa o homem enciumado.

Desberto trabalha na obra, porque disseram que pagava bem. Pobre coitado, carrega cimento pra cima e pra baixo, levanta ferro na corda, empunha com sacrifício a tora do alicerce. Da obra, só ganhou calo na mão e pele morena do sol. Oito anos de moreno de sol.

Desberto tem os filhos, a mulher, um passarinho pego na armadilha e um cachorro pulguento. Não tem máquina de lavar nem televisão. Tem ali um rádio a pilha onde houve rádio AM no domingo de manhã.

Nada espera do mundo, o Desberto. Rico nunca vai ser, bonito nunca foi, homem só sabe que é porque tem mulher e ela emprenha vez atrás de outra. Desberto espera, na segunda-feira, que chegue logo o sábado, que chegue logo o domingo. De repente, um vizinho mata um porco e trás pra ele, pro Desberto, um pouco de morcilha, uns pedaços pro feijão.

Nem ler, nem escrever, mal contar. Alegria sem sorriso, porque pouco dente na boca e alguma vergonha do vazio na boca aberta. Tristeza misturada com raiva do velho lazarento que lhe arrebentava a cara quando era moleque. Não chamava de pai, chamava de lazarento mesmo.

Mas um carinho da esposa. Carinho cheirando a cloro da mão da Maria faxineira que limpava casa de rico quinze dias por semana. Carinho tímido do filho mais velho que tem vergonha do pai Desberto porque tem esse nome e porque não tem nada no seu nome, só esse filho mais velho mais seis.

Não se pode dizer, no entanto, que Desberto é um homem infeliz. Não sabe o que é ser feliz, isso sim. Aliás, não sabia. Quando soube, era tarde.

Desceu do ônibus, era escuro. Era escurecendo. Viu longe, vindo do morro, nuvem de fumaça. Nem deu atenção. O vizinho ia mesmo queimar lixo lenha matagal. Foi chegando perto, ninguém na rua, um outro correndo morro acima, direção da moradia do Desberto.

Chegou perto, viu a cena: o casebre labareda alta o fogo comendo a madeira e o papelão. Perguntou se a mulher estava, disseram que sim. Perguntou dos filhos, também estavam. Do cão não perguntou, nem do passarinho: certamente que estariam.

Lembrou do velho lazarento lhe esbofeteando a boca, a cabeça, a barriga. Lembrou da promessa da obra, do dinheiro da obra que nunca veio, do dinheiro que nunca veio nem nunca virá pra gente como Desberto. Pensou na mulher, no cheiro de cloro na mão da mulher e soluçou. Tentou lembrar dos nomes dos filhos, não sabia de cor. Sua família.

Um passarinho que cantava e já não canta, virou cinza. Um cão amigo que não late nunca mais. Desberto morto, não sabiam o que ia fazer, pensaram que ia chegar perto, chorar perto do fogo, tentar salvar uma madeira, uma mesa, um colchão. Desberto no meio do fogo sem gritar, sem chorar e sem sorrir. Apenas no meio do fogo, queimando rapidamente a lentidão da chama que lhe abrasava a vida sem nenhuma pressa.

22 de mar. de 2009

Seu nome: Jorge.

Fazia muito tempo que o Jorge tinha decidido passar a corda no pescoço e pular da cadeira. Compartilhou sua certeza de que não valia a pena com a psicóloga, que armou pra ele: contatou a família e prescreveu seis semanas na clínica. Buscaram Jorge em casa e ele nem se alterou. “Camisa de força?”, perguntava sorrindo, “não será necessário”. Entrou na ambulância com a certeza de que jogaria o jogo deles pelo tempo que fosse necessário.

Ao sair da clínica, tudo meio nebuloso por causa dos remédios, decidiu que ficaria quieto, não provocaria e não daria a eles conta de suas insatisfações, de sua visão pessimista da vida, da sua e da deles. Voltou a ter com a psicóloga, de quem ouvia conselhos e que parecia não ouvir o que Jorge realmente dizia, porque mentia, claro está, e ninguém se dava conta do tamanho do embrulho de presente com que Jorge abraçava sua vida.

Foi ter com o padre. Talvez que a Igreja desse conta do vazio que o atingia em cheio, da boca ao ânus. Do senhor asséptico que lhe falava, Jorge anotou considerações importantes: uma família, uma casa melhor, um carro melhor, um emprego que deixe para os filhos um pouco de si, um futuro, se não brilhante, ao menos promissor.

E Jorge foi a fundo perseguindo suas novas metas. Sua seriedade enganava: ninguém percebia que Jorge nunca sorria. Até que alguém notou: “Olha, o Jorge não sorri”. A resposta, direta e seca: “Quem tem objetivos não perde tempo a mostrar os dentes”. A resposta coube, porque nunca mais perguntaram a respeito. E nunca mais alguém se incomodou com o fato de Jorge alcançar seus sucessos e, nem por isso, parecer uma pessoa feliz.

Fez tudo direito: encontrou uma esposa, fez três filhos nela. Formou-se, finalmente, na universidade. Abrira sua própria empresa há poucos dois anos e já era líder no seu segmento. Mesmo sem sorrir, Jorge conseguiu o respeito da família, dos amigos, do padre e da terapeuta. E de sua família: ali estavam as três crias, eram a sua cara, e talvez que não compartilhassem com o pai o sofrimento surdo que o fazia emudecer, no meio da manhã, pensando no silêncio que não se encontra por estes mundos de cá.

Tivesse acontecido dez anos atrás, talvez que seus pais sofreriam por muito tempo a perda bruta de quem morre porque quer morrer. As vizinhas, conselheiras da vida alheia, escreveriam teorias de crochet sobre a vidinha do Jorge: faltou amor de pai, faltou amor de mãe, faltou Jesus no coração, sobra revolta nessa juventude louca.

Tivesse acontecido dez anos atrás, não sentiriam tanto a sua falta. Em volta do corpo flácido, sustentado por uma cabeça desfigurada e oca, cartas calmamente escritas a seus destinatários. Para a esposa, para cada um de seus filhos, para o pai, para a mãe, para cada um dos irmãos, para um e outro amigo, para o padre, para a terapeuta.

Todos chocados, visivelmente chocados, devem ter entendido, cada um à sua maneira, que adiar
o inevitável é somente motivo para sofrer por mais tempo, por mais dez anos, como sofrera o Jorge. Devem ter entendido, sem dúvida, porque daquele dia em diante, nunca mais se falou uma palavra a respeito. Um orgulho indecente fazia com que se calassem cada vez que fossem pronunciar o seu nome: Jorge.

8 de mar. de 2009

Poeminha.

Fotografia é a arte de guardar memórias desenhadas em papel.

Nostalgia: saber-se um porta-retratos.

5 de mar. de 2009

Boletim de Ocorrência.

Antônio dormia profundamente. Muito profundamente.

Dona Vera chama uma vez, duas vezes, o Antônio nada de responder. Chama de novo. Cutuca, belisca, sacode; o Antônio dormindo. Dona Vera vai pra cozinha preparar o almoço, o esposo deitado na rede, dormindo profundamente. Põe o arroz a cozinhar, frita uma bisteca gorda, corta direitinho a salada. E chora. Dona Vera sabe que Seu Antônio já não vai bem, que ela própria não vai bem e que chega o dia de cada um.

Não tem coragem de chamá-lo pra almoçar. Põe, catolicamente, os dois pratos na pequena mesa, humilde. Arruma os talheres, os guardanapos. Vê-se espelhada na panela de inox: as rugas, os cabelos ralos, brancos, as mãos que tremem pela idade e pelo Antônio, que dorme.
Termina o almocinho triste e vai acordar o Antônio. Chama, chama de novo, fala mais alto, grita desesperada: “Antônio, meu Antônio morto, meu amor Antônio, Antônio meu de meu Deus!” O velho inerte. Verinha ao lado dele: o coração parado enquanto as lágrimas não se paravam de rolar.

***
Luiz é motorista de funerária. Não gosta de trabalhar em domingo, detesta trabalhar à noite. Ali atrás, o carregamento (chama de carregamento, não quer ter outro contato com o que leva, e ele mesmo disse: só carrego, não ponho a mão). Domingo, as ruas vazias. A rua escura ilumina-se quando Luiz, motorista experiente, mete noventa na Amadeu da Luz. À sua frente, um carro atravessado que Luiz não teve tempo de identificar qual era.
Para quem viu, um susto: ferro retorcido, vidro estilhaçado, sangue na cara de um e de outro. Ninguém reparou na calçada. Lá longe, o que parecia um embrulho, uns dois sacos de linhagem, atordoou quem passava. Na verdade, aquele montinho de pele e ossos queria se fazer notar. Quando se soube do que se tratava, teve gente que correu, teve gente que fugiu.
***
Um rastro de flores. Cheiro intenso de crisântemo e cravo. Madeira espalhada aqui e ali. A surpresa: sobre a calçada, metros adiante, dois corpos flácidos, deitados como dormindo, jogados como num gozo e abraçados como pra sempre.

Ali, mais adiante, Seu Antônio abraçava Dona Verinha. E Dona Verinha, que morreu de amor, era toda do abraço dele. Não virou notícia, não quiseram fotografar.
Mas eu sei, porque eu vi. De alguma forma, estava lá. Sorrindo.

3 de mar. de 2009

Título.

Penso que eu deveria viajar de verdade. Penso também que eu deveria mudar de hábitos, de companhias e de vida. Mudar mesmo: acordar borboleta amanhã, depois de amanhã lagarta e no terceiro dia subir ao céu como outro bicho que eu deixarei pra pensar depois. Também deveria parar de fumar. O problema não é cuspir sangue, definitivamente, mas o desconforto de ter de escarrar quando menos convém a qualquer uma das partes, a eles e a mim. Se alguém acha que me importo em causar-lhes desconforto, respondo-lhes que há muito tempo não conheço um colchão de espuma. Foi quando decidi – vontade própria, eu insisto – dormir sobre os pregos que não me importei mais com o mal que eu pudesse lhes causar. Desde então estamos bem delimitados: eles terminam onde eu os atravesso e versa, sem vice nem nada.

Aos poucos descobri que os fantasmas não existem. E bem se poderá dizer que essa conclusão é comum a todos os que abandonaram a fé cristã e se entregaram ao entretenimento simples do dia-a-dia: acordar, trabalhar, jantar, trepar e dormir. Não está mais na moda assistir à televisão depois da janta. Apenas sinto uma pequena culpa por dormir assistindo a filmes que as pessoas cultas assistem, mas eu tenho que trabalhar, me perdoem.

Pelo menos agora eu consigo evitar as pessoas que não suporto por perto. Aprendi a nobre tarefa de agüentá-las a fim de espantá-las: fico quieto, acendo um cigarro e suspiro umas duas ou três vezes. Só levanto os olhos do chão quando sinto que estou sozinho e se não me presenteio com uma nobre gargalhada é porque rio alto e não cairia bem se fosse desvendada a minha técnica de camuflagem: visto minha roupa de paisagem urbana bem comum e logo sou esquecido.

Mas eu não me esqueço. Decidi que nunca mais me perder por aí. É sempre uma tarefa cansativa, porque burocrática, encontrar-me. Do boletim de ocorrências às constantes visitas aos Achados e Perdidos da cidade, o que poderia ser rápido, fácil e simples (poderiam me expor por onde passa meu ônibus, por exemplo, pois cada um tem mesmo a cara do itinerário que segue para ir pra casa, cada um tem o cheiro do seu bairro) acaba por tornar-se árduo e quase sempre triste. Se nunca desisti, é porque me preciso, de verdade. Se assim já é difícil passar os dias e não chamar a atenção dos transeuntes, penso como seria chamativo se eu não me tivesse. Diriam “Olha lá, vai sem si” e ririam os mais engraçadinhos, as mães tapariam os olhos dos filhos e as velhas ficariam vermelhas de vergonha.

Outro dia li sobre mim numa dessas revistas de literatura e culinária. Dizia o articulista que a culpa de eu ser assim é do tempo em que me insiro, do contexto histórico e da realidade social de uma sociedade apolítica e socialmente desequilibrada. Senti-me importante: era a primeira vez que me notavam e me tratavam com respeito. Chamaram-me homem pós-moderno, pós-homem, moderno, desumano.

Em 6 de julho de 2006.

26 de fev. de 2009

Texstículo.

Acordou nauseado. Abraçando a privada, pensava na última refeição: há quanto tempo não comia? Sim, estava digerido, nos intestinos talvez. Por que, então, aquele vômito liso? Cambaleou até a cozinha: a cozinha o enojava; por cima da pia, a louça engordurada lhe causava arrepios. De onde isso, agora?

À tarde, enquanto Roberto Carlos cantarolava no rádio a pilha, uma saudade exagerada causada por fotografias antigas. Chorou sinceramente. Abraçado às almofadas, chorava e ria, ria e chorava, os soluços se acumulando na boca que deixava escorrer saliva, nos olhos que não se envergonhavam das lágrimas.

No entardecer, o espelho. De frente, de perfil. O coração acelerado. Um arrepio que lhe percorreu a espinha causando mais riso, mais lágrima e alguma verdadeira comoção. E se fosse? Não podia ser. Afinal, nunca soube de nada parecido. Mas estava ali, na sua frente.
Acariciou o ventre. Estava grávido, tinha certeza! Jamais se permitiria entender como. Jamais ousaria se indagar do porquê.

16 de fev. de 2009

Remorso.

Horas depois, diante do delegado, pensou que talvez houvesse uma saída, não aquela. O próprio delegado entendia o caso, mas era obrigado pela sua função a prender o assassino. Uma mulher, dois homens, chegou a pé, o carro quebrado na esquina — não fez barulho, por isso nenhum cuidado a mais foi tomado pela sua chegada. Houvesse o ruído longínquo da Brasília subindo o morro, punha os dois pra correr, nada se saberia.

Um grito. Dois homens tentando vestir as calças — não se corre de marido traído com as calças na mão. Na dúvida, enfrentar o corno. A mulher lambuzada de porra pelos cabelos gritando que não, não fizesse, não matasse. Vestidas as calças, daí sim, correr. Lourenço, homem bom, trabalhador, que nunca segurou na mão uma arma de fogo, as mãos calejadas, encontrou pelo caminho a foice de limpar arbusto. Limpou a honra na carne mole da mulher amada.

***

Vitório, que se tinha esse nome por analogia, ficava na analogia mesmo. Homem mendigo, sentado tomando pinga com um outro, contava sempre histórias, uma à qual sempre retornava: um setembro, primavera ou não, parecia ser, o dia claro. Arrumou uma trouxa de roupa, levou consigo os cobres dos velhos. À cidade! À cidade! Que só lá se podia ser feliz: trabalhar duro, arrumar uma moça, construir uma casa.

Um dia, a pinga: a moça embora, o trabalho pesado, a casa difícil. A pinga e a vontade de viver no sítio, criar gado, plantar aipim batata feijão e milho. Acordar cedo, dormir cedo, baile no final de semana com sanfona e cantoria. Talvez não devesse ter roubado os velhos: a pinga era o castigo. Lembrança da mãe morta, do pai morto, saudade do pai e da mãe. Vinte anos de pinga. Se tivesse esperado um pouco, se não tivesse feito a trouxa de roupas ralas, se tivesse pensado melhor.

***

A fronteira: calor, mosquitos, umidade, calor. Sair dali, ir pra São Paulo, conhecer o Rio de Janeiro. Um pouco estudado, funcionário público. Lurdinha grávida, os maiorzinhos sabendo a televisão. A proposta: deixar passar o carregamento, uns trocados no bolso. Mais um carregamento, mais uns trocados. O mato em volta o ouvia: “nessa merda de Amazônia, quem vai saber de mim? Quem quer saber de mim? Vou-me embora!”

Lurdinha chorando em casa: o dinheiro, gastava na zona. Nunca batera nela, agora soco e tapa de mão aberta. Maldito que cheira a aguardente e a doença venérea. Ela mesma deu um jeito de avisar os soldados. Soldado sofre mais, não permite que alguém se safe. Quando começou a apanhar, disse que a culpa era do calor, aquele verde todo, nenhum sinal de cidade em milhares de quilômetros. Meteram-lhe a baioneta no cu e ele respondeu em castelhano: “Hijos de la puta!” Lurdinha, coitada, os cinco filhos, lembrava do Ernesto morto: saudade do safado na barriga doída de vazia.

12 de fev. de 2009

Feira livre.

Quinta-feira. Nenhuma data importante, mas como diz o gerente da seção, todos os dias são realmente muito importantes. Pela janela, podia-se ver que amanhecia. Poderíamos ver, se ali estivéssemos. Ele, por enquanto, dormia. Quinta-feira era dia de auditoria na seção; papéis seriam requeridos, papéis seriam encontrados, papéis seriam analisados e arquivados. E era essa, exatamente, a sua função: cuidar dos papéis. A cidade acordava. Aos poucos, cada um seguiria atento para suas responsabilidades e ele teria, como era quinta-feira, um dia de muita responsabilidade.

Acordou. Nem um movimento mais, a não ser o dos olhos, que se abriram rapidamente, assustados, e procuraram pelo despertador — que não somente o acordava, mas lhe lembrava que a rotina é necessária, que os compromissos estão aí para serem cumpridos e que cada um tem a vida que merece. Merda de despertador. Procurou-o. Todos os dias, essa necessário de buscá-lo, porque cada vez colocava o relógio em um ponto diferente do quarto. Assim, não corria o risco de desligá-lo com a mecanicidade com que batia o cartão-ponto todos os dias, por exemplo.

Todos os dias acordava moribundo. Da mesma forma, levantava, punha água para esquentar e dirigia-se para o banho. Moribundo. Cansado, isso sim. Melhor dizer de saco cheio. Todos os dias era preciso que o despertador lhe lembrasse da necessidade de ser responsável, do quanto é preciso lutar e sofrer para conseguir algum tipo de estabilidade nessa vida de merda. O despertador e o chefe da seção, no fim, eram a mesma pessoa, mas com carcaças diferentes. Debaixo daquelas peles — uma de plástico, a outra recoberta de musgo — habitavam seres exatamente iguais, com a mesma função em suas vidas ditas úteis. Quanta reflexão interessante consegue ter uma pessoa normal ao acordar.

Nessa quinta-feira, não levantou, não pôs água para esquentar nem se dirigiu ao banho. O despertador tocava, mas como havia mesmo se acostumado com tanta irritação, dia após dia, por que não conseguiria se acostumar com o ti-ti-ti do relógio? Agüentava o chefe da seção e essa era a maior prova de paciência que poderia ter conseguido para demonstrar a forma surpreendente como se acostumava com a vida que levava.

Da mesma forma como havia conseguido com o despertador, com o chefe da seção, com os ônibus lotados — de manhã e à noite — e com a Voz do Brasil, haveria de encontrar uma forma de lidar com sua cama e seu quarto, de onde não sairia nos próximos dias. Hesitou. Se seria mesmo capaz de não se mover, isso era de se descobrir. Mas já que agüentava os ônibus lotados, o chefe da seção, a fila do café e o despertador, conseguiria sim se acostumar com o ócio, a falta de movimentos mecânicos, a ausência de companhias desagradáveis, os cheiros todos que lhe lembravam de um tempo que não tinha certeza se já havia passado ou ainda estava por vir.

Sem mover qualquer músculo, se não os responsáveis pela órbita dos olhos, observou atentamente, através da fresta na cortina, que o sol já ia alto. Perdia o ônibus, o horário de entrada no escritório e, por ser quinta-feira e não ter comparecido — ainda mais sem uma justificativa muito convincente — perderia também o emprego.

Fechou os olhos e fez um último movimento notável: virou-se para o lado e voltou a dormir.

9 de fev. de 2009

Olheiras postiças

3:51. Se não dormiu até agora, não é agora que vai dormir. Tudo em que pensa confunde-se com o barulho da chuva e com os roncos esparsos de um e outro veículo que a essa hora visitam a solidão da cidade.

“Meu pai”, pensa, “cobrando essa merreca de trezentos paus. Vou dizer pro velho ‘Porra! trezentos paus, choramingando isso? E se eu for te cobrar os vinte anos? Vinte anos!’ Não vou dizer. Mas devia. E devia dizer mais. Devia fazer o velho chorar por mim como chora pelos outros”.

“O aluguel, a gente devia combinar melhor: paga quanto acha que deve. Esse mês, por exemplo, não tenho grana. Não quero pagar nada. Não tenho como, por isso não quero. O pouco que consegui juntar é pra comida. Arroz, feijão, azeite, sal e lingüiça defumada. Não vão me deixar sem a lingüiça. E tem os trezentos paus do meu pai. E se eu disser pra ele que não tenho como pagar, que fico sem comer?”

Tenta acordar a mulher que dorme ao seu lado. E se conseguir? Poderia contar uma piada. “A essa hora só se ri sozinho, só assim”. Não conta para si a piada, já conhece o final. E não pode ligar o rádio. Não tem como telefonar, o telefone cortado. “Pra quem eu ligaria? Pra um 0800, conversar com a telefonista. Bom dia, moça, qual é o teu nome? Não, não tem problema nenhum aqui, não tenho código de assinante. Não, não sou cliente. Ela desligaria, eu discaria de novo o 0800 e já seria outra pessoa do lado de lá: bom dia, moça, tudo bem?”

“Mamãe pareceu triste ontem. Acho que por causa do emprego, digo que não quero ficar, não nasci pra isso. Sempre me culpando, a velha. Eu digo: sou assim, assim me fizeram, passo fome só às vezes, querem o que de mim? Não dou despesa nenhuma. O aluguel que paga, paga porque quer. Se me desalojarem, morre de medo que volte eu para casa.”

“Só pode ser isso. Puta merda: o relatório do chefe. Diabo de insônia! Aquilo era jeito de falar? Claro que ia esquecer. Esqueci por gosto. Ou esqueci porque esqueci mesmo. 'Arruma essa merda e me traz corrigido!'. Vou dizer que perdi o arquivo. É capaz de ele acreditar. Vou fazer melhor: não vou trabalhar e outro trouxa vai levar a culpa. Acho que ele nem sabe o meu nome. Vai na mesa do lado da minha, se confunde, chama outro de incompetente. Apareço semana que vem, arrumo um atestado”.

“Mês que vem pago o pai. Eu que pedi, a culpa é minha, sou eu quem tem de pagar. Vou ligar logo cedo pra dizer que não vai dar agora, que fico sem a lingüiça, ele vai entender”.

“Essa coisa de acordar cedo é um vício cristão”, pensa. “Acordar cedo pra que se possa aproveitar o dia, almoçar ao meio-dia com a família, trabalhar durante o dia pra dormir à noite, tranqüilo. Acordar cedo pra que todos sejam felizes: Deus, patrão, pai, mãe: tudo vício, todos viciados. Acontece que hoje não vou trabalhar. Foda-se. Os trezentos que devo pro pai, pago quando puder. Foda-se mesmo. Bando de viciados”.

Às 5:57 desliga o despertador para não acordar a mulher. São mais comuns os carros passando. A cidade acorda. Sonolenta, limpa a remela da noite — nevoeiro — e procura espaço para receber o sol. 6:10: Roberto, o rabo enfiado entre as pernas, lava o rosto sem se olhar no espelho. Na ponta dos pés, adentra no quarto, pega as roupas cuidadosamente dobradas de sobre a cadeira, veste-se, beija a testa da estranha ao seu lado e vai trabalhar. As olheiras bem poderiam ser postiças, as retiraria quando não fossem necessárias, quando não combinassem com a roupa que usa ou com o sol de lá fora, que começa a aparecer.

As olheiras bem poderiam ser postiças, mas não são.


Na gaveta desde julho de 2008.

6 de fev. de 2009

Dona Santinha

— Lê pra mim, Zenaide. Como é o nome?
— Dormilex, Dona Santinha. Dor-mi-lex.

Santinha, a vizinha do lado da casa de Zenaide, não sabe ler nem o próprio nome. Decorou o desenho e, letrinha por letrinha, o nome não lhe falta à necessidade de escrevê-lo. Santinha não dorme, a coitada, por isso precisa dos remédios. Sofre de saudade do marido morto, que falta faz o falecido. Sofre pelo filho bêbado que lhe rouba os trocados da pensão. Sofre pela boa nora, que apanha, e é pele e osso, a coitada.

Zenaide é auxiliar de enfermagem. Veste branco, é doutora.

Santinha todo dia no médico. “Angústia no peito, doutor”, reclama. “Dor no peito, doutor”, suspira. E nem Dormilex faz Santinha dormir. “É uma angústia, Sileide, essa vida!”. O coração fraco, a saúde que se vai com o tempo, tudo é tristeza e mágoa. Dona Santinha, os olhos cansados, pergunta à amiga:

— An-gus-ti-ol! Angustiol! Lembra a angústia? Remédio pra angústia!”, ensina Zenaide. Santinha repete e repete e já sabe todos os nomes. De fórmulas nada entende, mas confia na amiga.

“Flexitonazol!”.
“Artimioziopã”.

Zenaide vê mais, doutora que é. Assim pensa a Santinha. Um dia, aparece com pílulas brancas, sem desenho nem letra em cima.

— Pra que servem?, pergunta Santinha.
— Pra tudo, reflete Zenaide.
— De onde vêm?, indaga Santinha.
— Roubei do hospital, é muito caro, não tem pra comprar na farmácia nem em hospital de pobre.
— Resolve?, anseia Santinha.

Santinha, enfim, dorme. Acorda mudada, limpa a casa, arruma um cachorro por companhia. Abre as janelas, rega as flores. Põe o filho pra fora de casa, chama a nora para morar consigo, arruma namorado no baile. Toda semana, Zenaide traz os comprimidos. Santinha segue a receita: um para acordar, um para dormir. Zenaide sabe, aprendeu de ouvir enfermeira falar. Farinha, água, pitada de açúcar, pitada de sal.

Santinha, vida nova, todo dia agradece à amiga. “Café hoje à tarde, Zenaide?”. Da angústia, não se lembra. Da insônia, mal se recorda. Esquece o nome do remédio, bate à porta da amiga:

— Zenaide, como é mesmo o nome?
— Por que, vai ao médico de novo?
— Não, minha filha, é só pra ter guardado, pra agradecer a Deus.
— Placebo, Dona Santinha. Pla-ce-bo.
— Esse é mais fácil.

Zenaide anota o nome no papel que Santinha dobra e guarda dentro da Bíblia que nunca leu, que nunca lerá.

5 de fev. de 2009

Acidente

“Putaquepariu!”, foi o que tive tempo de exclamar, e já era encontrado pelo carro que vinha em minha direção e que não tive tempo de reconhecer a marca. Assim que voei, não sei o que passava pela minha cabeça, mas tive a impressão de que tinha feito merda e que, se estava mesmo voando, não queria saber do meu pouso. Rápido, claro que sim, já estava caído no asfalto, todo arranhado e possivelmente sangrando. Podia, com minha racionalidade, facilmente presumir que me encontrava todo quebrado. Mas não tive tempo de concluir esse pensamento, não. Desmaiava em seguida.

Segundos antes, eu acabava de sair de uma encrenca. E feia. Não sou casado, mas ela é. Porra!, casamento não é isso! Onde já se viu uma mulher trabalhar tanto, ser tão atenciosa com a família, tão cuidadosa com os filhos e não receber amor do marido? Foi aí que entrei, com o amor. Não faz muito tempo, questão de meses. E uma mulher que passa a ser realmente amada, muda. Ela mudou a ponto de o marido estranhar: sorria. Ontem eles discutiram, ele disse o que pensava, do que desconfiava, deu três tapas na cara dela e foi dormir.

Hoje foi que nos encontramos. Fiquei muito irritado quando vi seus hematomas e virei macho, de verdade. Disse a ela que largasse aquela tralha toda; família, marido, os moleques, o cachorro, tudo!, e viesse ser feliz ao meu lado. Bem que eu queria mesmo que ela dissesse não. Apesar do exagero da hora, penso que não estou preparado para ter esposa e me incomodar com essas histórias de morar junto. E a resposta foi mesmo negativa. Para não perder a pose, disse a ela que procurasse outro para despejar em cima suas mágoas de mulher insatisfeita, que eu tinha mais com o que me preocupar, que nunca mais me procurasse e essas coisas todas que são ditas em horas nervosas. Entrei no carro e saí, a mil. Mais por pose do que por pressa. Olhei rapidamente para trás para ver se ela me seguia, mesmo que com o olhar, mas não, já tinha sumido. Quando voltei a olhar a estrada é que apareceu aquele imbecil, que atravessou sem olhar para os lados.

— Dá um beijinho, Paulinha!

Faz tempo que estou nessa com a Paulinha. Como diz o Guto, essa é comestível e intocada. E gostosa, muito gostosa. E eu, volta e meia trago, ela aqui pra praça pra me dar aulinha de inglês. Qualé! Meus pais me tiveram em Londres e eu cresci no Canadá; aulinha de inglês? Quero mesmo é vê-la pronunciando thanks, thought, think; lingüinha entre os dentes, oh coisa maravilhosa. Quando eu deixei de ficar safado com ela, Paulinha começou a me dar atenção. Fiquei duas semanas sem falar em aula de inglês, pra ver se ela me chamava — e me chamou.

Era o que eu esperava. Pois que nem falamos de inglês, coisa nenhuma. Batemos papo lá por umas duas horas. Quando o papo esfriava e eu tinha a chance de me aproveitar do silêncio, sentei mais perto da Paulinha e pedi um beijinho. Foi o tempo de fecharmos os olhos lentamente para abri-los com espanto. Não vi o cara ser atropelado, mas vi ele rolando no asfalto. Paulinha começou a chorar e lá se foi uma tarde inteira perdida.

Caetano nunca foi supérfluo. Lá pra mulher dele, até pode ser. Porque, amigo, a gente sempre gosta mais do que família. E eu gostava de Caetano como um irmão, justamente por que não era meu irmão. A gente se conheceu por aqui, pela pracinha, quando ainda era novo. Ele mais novo que eu. Ensinei muita coisa ao Caetano: jogar xadrez, escapar da patroa, discutir política. E foi o que a gente fez bem uns quarenta anos. Pois que, um dia, engracei com uma senhora, viúva como eu, e não tinha mais tempo pro Caetano. Paixão é assim que é. O pobre caiu na tristeza profunda, de dar pena, foi o que disseram. Então, depois, ele se atirou lá da varanda dele, do apartamentinhozinho que ele tinha, chegaram a falar que era por causa da muita idade e da aposentadoria pouca. Mas eu não acredito, porque falei com a viúva dele, que me disse que ele se atirou foi de solidão. Não tinha mais amigo, que era eu, pra jogar conversa fora, falar mal da vida e do governo, e nenhum filho dele sabia jogar xadrez.

Atirou-se, eu fiquei sabendo do pessoal aqui da vizinhança, com a cabeça na calçada que trincou o osso e saiu muito sangue. Por isso eu fiquei tão magoado quando vi o rapaz caído atrás do carro. Lembrei do Caetano, meu amigo velho, que se estrebuchou também, aqui mais pra frente, não tem nem um mês ainda.

4 de fev. de 2009

Efemerismo.

Quando quiseres
dizer que amas,
quando aprenderes.

Quando quiseres
compartilhar os
teus prazeres.

(Àquela hora
da noite que evita
ser dia)

Terás tanto pra dizer
Pra falar do teu sentir.

Já todos terão ido dormir.


Pinheira, 3 de janeiro de 2009.

3 de fev. de 2009

O lado B dela. E o meu.

- Me deu vontade de ler.

- Só quem sabe - ou já soube - pode ler assim dessa forma tão… chorosa como li teu texto. Belo e verdadeiro. Gracias! (…) Outch! Doeu fundo isso.

- Pensei em 456 coisas pra comentar aqui enquanto lia pela primeira, segunda ou terceira vez. Até que conclui que para histórias tão parecidas com a vida real, comentários são irrelevantes perto de vivências. Do cacete, literariamente.

- Sim, Marina, concordo contigo quanto à irrelevância de comentários relacionados a textos, por assim dizer, tão reais. É por isso que, se me magoar tão profundamente como hoje, te lendo, vou atacar a autora, não a autoria. Muito bom te ler.

- Te deixo magoado, ameaças me atacar e ainda assim dizes que é bom me ler? E depois nós complicamos as coisas…

- As coisas são complicadas por si só. Primeiro, como disse, recebi duas raquetadas no mesmo dia vindas de uma autora que, felizmente, não conheço: sou de fazer fiasco quando sinto a ordem do meu dia perturbada. E se foi assim, se doeu, é porque foi bom ler. Não é tão complicado assim…

- Se as raquetadas foram dignas de fiascos, doeram e essa dor fez sentir uma perturbação no seu dia, fico feliz. Essa mesma felicidade que você deve sentir por não conhecer a autora das raquetadas. (No final, todo mundo é complicado. Mesmo porque esse pingue-pongue da vida não deixa simplicidade alguma durar pra sempre).

- Sim, é pra tu te sentires feliz por ter me perturbado: chegaste lá. Agora não posso dizer que me acalma não te conhecer, porque certamente vou desviar de pessoas na rua (nunca se sabe aonde está a raquete) com medo de apanhar de novo, numa quinta-feira quente e úmida ou num domingo de sol e vento.

- Ritmo gostoso de se ler. Quanto a desviar de pessoas na rua, se acalme. Quase todas elas escondem suas raquetes de um jeito tão especial, que acabam por nem lembrar que elas existem. Só malucos saem tentando acertar os outros, já que na maioria das vezes se encontra só o vento e nenhuma cara pra bater.

- Por isso mesmo essa coisa de tensão: não quero me desviar das pessoas: quero me desviar de ti- ou não, claro está, porque acabo me tornando realmente curioso em saber sobre quem consegue fazer isso assim, com ou sem raquetes, querendo ou não usá-las.

- Olha, interessante. Acho que é a primeira vez que um ilustre desconhecido me fala sobre querer (ou não) desviar de mim na rua. Minhas raquetes (ou o que quer que elas sejam) começaram a fazer efeito em pessoas que eu não conheço e não só nas que evitam as conversas mais delicadas comigo na vida real, palpável. De qualquer forma, hoje não tentarei te atacar e acredito que não vamos nos cruzar por aí. Ande tranquilo.

- Devo me sentir seguro, então? Acho que conseguir fazer efeito em desconhecidos pode ser vantajoso - desde que desconhecidos permaneçam. Uma pena que hoje não aconteça nada grandioso: tirei o dia de folga em busca de. Mas andarei tranquilo, sim. Tranquilo e curioso.

- Curioso?

- Por querer saber quem é que essa pessoa que me diz pra andar tranquilo porque - hoje - não vai tentar me atacar, tampouco cruzar comigo por aí.

- Se te consola, mesmo a que tenta te acalmar sabe exatamente quem ela é.

- Sei? Sabe? (…) Um dia a gente se esbarra e mato a curiosidade. Ou ela me mata: a curiosidade ou a raquetada? Enfim.

- E o mais engraçado é que eu já passei por você.

- Injusta!

- Qual é a injustiça?

- Eu não saber te reconhecer é uma.

- É o meu lado A. Você também pode achar que uso vestidos e trançinhas. Mas é bom, me sinto menos perigosa. Ou pelo menos escondo bem o perigo.

- Desculpa, mas não te creio de tranças. E eu talvez não quisesse conhecer o teu lado A. Esse é sempre tão fácil de se saber. Mas esse perigo me chama atenção. Uma pena não te saber, sutil desconhecida.

- Um dia nos encontraremos e o problema estará resolvido, ilustre desconhecido. Ou, quem sabe, na próxima vez que estiveres sentado a escadaria e eu passar, você seja o primeiro a me reconhecer pelo Lado B.

- Que assim seja. Lado B, sim: lá estão sempre as melhores músicas.


Uma longa curta história que começou por lá, no Invisível Particular, da Marina Melz, continuou por aqui, depois se enrolou e assim se fez.

2 de fev. de 2009

Resoluções de ano-novo a partir da Praia da Pinheira.

Para Ligia.

Voltar a ver o mar logo; vê-lo no inverno também.

Esquecer fulana e beltrana: se acumulam com o tempo.

Dizer o que tiver de ser dito a quem realmente tiver ouvidos.

Não entristecer à toa, não me entristecer à toa.

Aprender a viver sozinho, verdadeiramente sozinho.

Abrir mão de comemorar datas tristes.

Aprender a comer.

Aprender a dormir.

Evitar lembrar os nomes que se esquecem de se esquecer.

Achar alguém pra dormir junto.


Pinheira, 3 de janeiro de 2009.

30 de jan. de 2009

Poema que não foi.

Teus olhos, tuas sardas
teu falar tão tranquilo
(Mas sabe-se a ardência
da tua chama, Juliana).

Os amores vêm e vão
e quase nada tem-se
a ver com isso.
Mas te digo:
não despreza quem
te exclama, Juliana.

Mais do que dez minutos.
Dias inteiros, por que não?
Para saber-te alguém.
Para denominar-te.
Não importa se no Blues,
Se sentados na Lagoa.

[Não importa se na cama, Juliana]

29 de jan. de 2009

GAVETA #01

Saudade. Nunca souberam exatamente o que aconteceu, mas quando chegaram ela já estava morta. A cabeça meio de lado, deitada sobre o tapete vermelho da sala de visitas. Até ajudava a compor o ambiente. Aquele cadáver. O marido chorava e se ria todo. Confusão que se tem com a perda. Ataque cardíaco, aneurisma, leucemia. Falaram, falaram, mas realmente, de verdade, nunca disseram nada. Morta e enterrada.

Saudade. Dia ruim para Juliano. Quando os dias não são mais os mesmos, porque insistir em sentir saudade dos dias? Uma secretária chamada erroneamente Marlise — poderia ter um nome que condissesse com seu potencial de beleza. Família do interior, ficou Marlise mesmo. Uma secretária chamada Marlise o ajudava a esquecer a morte da esposa. Sexo, sexo. Aprendeu que bater lhe ajudava com os dias. E Marlise gostava de apanhar. Aprendeu que gostava, descobriu que gostava quando Juliano lhe deu o primeiro soco na cara exposta. Queria apanhar mais. Queria bater mais. Davam-se muito bem.

Dia ruim para Juliano. Reunião com os sócio e histórias sobre como deve ser uma sociedade, como se deve proceder com o dinheiro, como as pessoas, às vezes, tornam-se repentinamente estúpidas e desgostosas. Ele entendia que falavam com ele. Falavam com ele sobre ele mesmo, e ele não gostava. Dia ruim. No final da tarde, reunião com a professora do Tiaguinho. Criança revoltada que desistiu de aprender. Sete anos. Criança estranha que não conversa com os amigos e agride a professora.

Dia ruim, noite ruim. Telefonou-lhe a ex-esposa. Uma outra, que tinha dentes de ciso e os olhos caídos. Não a morta, uma outra. Falou-lhe dos filhos, que sentiam saudade e não lembravam mais quem era o pai. E que precisavam de dinheiro, todos os três. E a Vanessa precisa usar óculos o quanto antes e precisa de dinheiro para fazê-los. Noite ruim. Acordou com o alarme do carro gritando, desesperadamente, que queriam roubá-lo. Polícia, boletim de ocorrência. Três da manhã. Saudade da esposa morta.

De manhã, a surpresa. Encontram-no morto. Não em casa. Não. No cemitério. As unhas partidas, cheias de terra; a cara boa. Cara boa de criança que encontra presente de natal antes do natal. Cara boa. A minha, se encontro algum dinheiro perdido na gaveta. Estranho. Foto no jornal popular. Morto agarrado à morta. Triste cena a do Juliano abraçado ao punhado de ossos cobertos por fina camada de pele cinza.

Não havia cheiro de podre.

(Na gaveta desde abril de 2007)

27 de jan. de 2009

A minha ela

Uma mulher, que mulher fosse. Não que se parecesse com uma e tivesse ainda os pudores esperados da adolescência. As mais jovens têm outros odores, é verdade. No entanto tu sabes que esse perfume se extingue nas primeiras horas da manhã, quando estás a pensar em tristezas e és tomado, de abrupto, por sua ternura e por seu carinho, que te fazem pensar no mundo como um bom lugar para se viver, mesmo sem esquecer tuas tristezas. Do pudor, guardarás uma pergunta amarga: quando, ou melhor, com quem se tornará mulher esta que agora é criança ao teu lado? Esses montes de homens que se acotovelam nos balcões dos bares, todos trazem consigo a mesma dor de saber que não foram eles que as revelaram mulheres. Pobres fracos; deixam-se seduzir pelo perfume e se esquecem de lhes transgredir a vergonha. Pensam, tristemente, que foram usados. E estão certos por pensar assim.

Quando a vi, não tive dúvidas a respeito de sua pessoa: parecia indizível nas palavras tais quais as conhecemos — precisaria de novos signos, novos jeitos de querer dizer as coisas, para dizê-la a ela. Via em seu olhar mais do que supunha buscar compreender. Para tê-la, sabia que precisaria deixar de tratar como objetos as amantes que mantinha — Dora, Simone, Beatriz — e tratá-la como um objeto precioso; aliás, como uma preciosidade, sem ser objeto. Era preciso afastar-me dessas mulheres com quem conseguia, a pouco custo, algum entretenimento. Rapidamente deixei de visitá-las. Rapidamente, como costumam ser as transas que mantém os assalariados, aos domingos à noite, com suas esposas gordas: com a desculpa de brindarem o final de domingo, o início da semana; na verdade, expõem-se à repugnância para se desculparem com as companheiras pela rudez com que as trataram neste sábado e domingo chuvosos. Copulam como cães em dias tediosos. Não parecem humanos e sabem-no. Por isso as luzes apagadas.

Beatriz chorou. Disse que nunca antes havia se sentido tão puta, tão miseravelmente usada, como foi por mim. Não dei atenção ao que dizia, se não no momento em que disse que não me esqueceria, que eu havia sido o primeiro homem de sua vida. “Com agá maiúsculo, Mário”. Ri sinceramente de como se portava esta que, outrora, havia sido o melhor escape dessa minha vida mediana. “Desculpe-me, Bea, mas não conseguirás me manter por perto com as tuas frases prontas”. Saí, mas deixei a porta aberta. Caminhei lentamente até o elevador, que demorei para chamar. Se Beatriz viesse ao meu encontro nesses últimos instantes, talvez nunca tivesse deixado minha glamourosa vida de amante incorruptível. O elevador aportou naquele sexto andar. A porta de Beatriz continuava aberta. Seis andares abaixo, dois minutos depois, pensava que teria sido melhor manter Beatriz à minha espera: gosto desse bairro e agora não terei mais nenhum motivo para visitá-lo.

Não tem nome, ou pelo menos não precisa ter. Trata-se sim de uma mulher, como todas as outras que por aí se cruza num sábado à noite. Mas dar-lhe um nome seria limitar a impressão que me causa. Por isso, chamo-a de ela, simplesmente.

Dora era três anos mais velha do que eu e muitas vezes limitava nosso relacionamento a essa diferença. Passávamos muito tempo discutindo o porquê de eu parecer mais velho e ela, nos seus quase trinta anos, ainda agir como uma adolescente. Não era excelente na cama, mas sabia conversar assuntos que me interessavam. Não consegui lhe dizer que ia embora, que não me procurasse; ouvir de Beatriz que se sentira puta não fora assim tão fácil. Não queria que Dora me fizesse passar pelo mesmo constrangimento. Trabalhava no mesmo bairro em que morava e dificilmente o deixava para se divertir. Acontece disso no subúrbio: se não existem reais motivos para se deixar o lar e as redondezas que o circundam, é por lá mesmo que se fica. Limitei-me a dizer que não poderia mais vê-la, que os estudos estavam me consumindo a ponto de não poder mais perder tempo... Tivesse escolhido outras palavras! Dora rapidamente abriu a porta de seu quarto e fez sinal para que me retirasse. Acho que, no fundo, sonhava com o dia em que lhe pediria em casamento, o que naturalmente não aconteceria, e o que ela realmente não podia supor dessa forma. “Some daqui, canalha!” foram as suas únicas palavras. Ainda busquei seus olhos para mostrar que os meus lamentavam a sua perda. Dora olhava para o chão. Na verdade, mirava os sapatos que eu havia lhe dado de presente, quando a fiz prometer me acompanharia para dançar um dia desses. Dora dançando devia ser engraçado. Não sei, não tive tempo de ver.

Na mesa do bar, Celso perguntou se agia com razão, se sabia o que estava fazendo. Disse-lhe que não. Saberia estar certo se tudo desse certo no final. Angustiou-me seu pessimismo. “Três amantes. Não é assim dizer a uma mulher que ela não te serve mais: tudo isso tem um preço”. Disse a ele que o preço estava pago, pois já não podia contar com Dora, Beatriz e Simone. “Além do mais, três mulheres eram demais para mim. Sério. Tô falando sério! Tem gente aí, homens como eu, que não conseguem nem uma. Por isso essa doença generalizada, sabia? Por isso a busca eterna por uma mulher que se pareça com a mãe. Não acharam quem lhes desse prazer de verdade. Não foram comidos direito”. Celso ria.

Simone ria ao me ver. Sempre ria, o que me irritava. Dizia-lhe que não risse, que eu não tinha cara de palhaço e isso só a fazia rir mais. Também riu quando lhe disse que não precisava mais dela, que fosse ocupar seu tempo e suas neuroses com outro cara — o que ela rapidamente conseguiria. Muito bela, seu excesso de confiança em si a tornava uma femme fatale, algo de que ela nem desconfiava. Disse-lhe que não estava brincando e que era isso mesmo, que nunca mais me procurasse porque não a atenderia. Raramente a visitava, telefonava, chamava para aquietar minhas necessidades de homem. Soube por Celso, logo no início, que é assim que se tem de tratar as mulheres lindas e fortes. Deu certo. Simone foi quem melhor entendeu a situação em que eu me encontrava; apesar de nada ter dito a respeito dela, estava certa de que algo muito sério me acontecia.

— E quanto a Dora? E quanto a Beatriz?
— Elas vão ficar bem — disse.
— Não é uma delas, então.
— Não, Simone, não é uma delas.

Essa conversa a fez rir e, rindo, despediu-se de mim com um beijo. Quanta saúde na alma de Simone.

Celso perguntou se eu sabia alguma coisa sobre a mulher pela qual acabava de largar praticamente tudo. Disse-lhe que sabia pouco e que talvez a confundisse com outra pessoa ou, pior, não a reconhecesse se estivesse diante de mim e a luz não fosse boa.

— Confuso. Estou confuso. Não se pode trocar o certo pelo incerto — disse ele, enquanto dobrava ao meio um guardanapo de papel.
— Mas não é pra ficar confuso, Celso. Acontece que, por hora, é assim que as coisas têm de ser. Pelo menos é o que parece, não é?

A conversa com Celso me deixou inseguro. Irritei-me com isso e fiquei em silêncio. Logo ele era um dos que se acotovelavam no balcão do bar atrás de explicações (que não viriam, sempre disse a ele) para o fato de a ela dele ter ido embora. Não tocávamos no seu nome e não o farei aqui em respeito: há sempre muitos nomes que nos acostumamos a dizer e a repetir, esquecendo que seus significados os acompanham e podem nos abocanhar a qualquer momento. Meu silêncio não me constrangia, não era tédio. Observava as pessoas sentadas em outras mesas: homens e mulheres que se compraziam ao ouvir as mesmas canções de sempre, o mesmo bar com as mesmas canções, tocadas por um homem que parecia menor do que o violão que empunha.

O que se espera de uma mulher, eis a pergunta que fazemos, homens e mulheres, não levando em conta o que esperamos, mas se pode vir a esperar de nós. Sabia do tamanho do erro, da desgraça em que se pode cair ao abrir-se mão de si. Por isso decidi que seria eu mesmo ao encontrá-la, quando a encontrasse, e não consentiria com nenhuma mudança minha que não fosse fruto de real aprendizado; nunca mais mudar para agradar, mas mudar para sentir-me agradado. É em função disso que se vive; é em função disso que se deveria deixar viver. No entanto, jamais supunha que ela pudesse entrar por aquela porta, àquela noite. Jamais pude supor que adentrasse num bar cheio de homens e mulheres solitários em busca de embriaguez e sexo fácil. Nunca supondo nada contra mim, errei. O relógio devia marcar uma manhã. Não marcou mais hora nenhuma: naquele momento, o tempo parou.

Celso dizia que muitas coisas que eu ainda não tinha maturidade para entender. Uma de suas recomendações era que não se devia falar com uma mulher que não se conhecia quando se aparentasse embriaguez. Bebíamos sempre, Celso e eu, e raramente eu perdia o controle sobre minha sobriedade. Nessa noite, sentia-me bem, sentia-me leve. Se bebericava minhas cervejas, era por estar num bar e porque as pessoas à minha volta faziam-me sentir bem. No entanto, o mal estar que senti ao vê-la e imaginá-la me vendo ali, pensando talvez em outro homem ou sentindo saudade, não sei; o mal estar que senti ao vê-la tinha a ver com a minha fragilidade naquele momento. Por isso, talvez, tenha pedido um novo chopp, que o meu não estava mais gelado. Para curar-me desse mal estar, passei a beber a longos goles e os copos, sem que eu percebesse, acumulavam-se. Vazios.

Não que eu prefira as mulheres que fumam. Simone, Dora e Beatriz fumavam e talvez por isso me sentisse bem ao me deitar com elas. O cheiro do tabaco em seus corpos tão distintos — a mesma fragrância ofensiva, cáustica e levemente triste — sempre me excitou. Não a vi fumando no bar. Não pediu cinzeiro ao garçom. Adivinhava seu perfume: pela primeira vez, sentiria o verdadeiro cheiro de uma mulher. Não há mistério algum em homens bêbados puxarem conversas com essas belas mulheres que se encontram nos bares. É a defesa deles ante a agressiva beleza — e a imaginação... — dessas fêmeas insinuantes. Também não há mistérios nas mulheres que rejeitam esses homens: percebem-nos fracos. Lá estava eu, com o brilho nos olhos de quem já pode falar sem perceber que gagueja e com o cigarro aceso na mão. Poucos passos me separavam dela. A minha ela. Porque, como diz Celso, cada homem tem a sua.

Não me viu. O bar, aos poucos, esvaziava; aos poucos, os homens bêbados do balcão desistiam de procurar ali suas ex-meninas, agora mulheres, e iam para casa ou para a zona. Celso foi também e dessa vez não se despediu. Fiquei ali, sentado, a dois passos de sua mesa. Estava bêbado, já, mas conseguia acompanhar seu olhar vago. O olhar vago de uma mulher olha para tudo que lhe é realmente interessante. Sabia disso e me decepcionou o fato de não ter sido notado. Aliás, em dois ou três momentos talvez nossos olhares tenham se cruzado. Não fui reparado: tinha medo. A minha ela talvez tenha percebido: mulheres não gostam de homens que sentem medo. Assim eu pensava aquela noite, assim eu parei de temer. Nos falamos e foi como se nos conhecêssemos há anos, muitos anos. Havíamos nascido juntos, para sermos juntos e, enfim, havíamos nos encontrado.

Celso nunca telefonava, agora a todo instante. Perturba essa demorada atenção que tem me dedicado. Pareço doente, é o que imagino quando as pessoas que me conhecem olham com aquelas caras de pena. Quem não me conhece, deve imaginar que nasci assim mesmo, que as olheiras e a corcunda são parte de mim e que, no mínimo, devo ser uma pessoa infeliz por isso. Não querer sair de casa, não querer ver gente. Que mal há nisso tudo?

— É difícil se recolocar no mercado — diz Celso, sorrindo — mas eu posso ajudar.
— Não sei como agir — respondo.
— Naturalmente, talvez.

Se fosse fácil. Não que ainda reste algo de minha ela que valha a pena ser comentado, medido ou dito. Celso me convida para beber e aceito, apesar da cáustica letargia que sinto se aproximar. Sempre se aproxima quando surge a oportunidade de sair de casa, de encontrar pessoas novas, de cheirar cheiros novos em cabelos desconhecidos. Mas eis o grande problema: cheiros novos. Como senti-los se ainda sinto em mim o cheiro dela? Como cheirar outros cabelos, lamber outro sexo, sentir o azedo de alguma outra axila que sofre o espasmo de um orgasmo depois de seis anos sentindo os humores da mesma mulher?

Não tem lá grande explicação: um dia, olhei-a nos olhos e vi que já não a amava, que talvez nunca a tivesse amado. Não fiz esforço para dizer-lhe isso: sabe-se o quanto as mulheres têm capacidade de sentir. Ao invés de lhe falar, passei a estar ausente, simplesmente ausente. Ali, mas em outro lugar. De alguma forma, sentia que havia perdido a menina, que ela tinha ido embora sem deixar ninguém no lugar: um corpo, seios maduros, ancas maduras, mas nem menina nem mulher. Sentia-me culpado por isso, em parte: e se fosse eu quem a tivesse deflorado das doçuras da infância? Certamente que sim. Já não possuía a mesma brancura inocente de quando a conheci. No entanto, como repito e como ouço repetir-se na minha cabeça todo o tempo, com a ida da menina, não havia ninguém dentro do corpo nu que deitava-se ao meu lado. Era eu quem a segurava, de alguma forma, na prisão que eu havia lhe construído. Necessitava deixá-la partir, mas não sabia como. No entanto, estava claro: seria eu, logo, quem se debateria com outros homens nos balcões dos bares pensando no que poderia ter sido e realmente que jamais poderia ser.

Digo a Celso que não force a barra e respeite meus silêncios. Já me bastam todos os outros amigos, nossos amigos, amigos meus ou não, agora, lamentando que unha-e-carne, feijão-e-arroz etc. tenham se separado. Encravou-se a unha, azedou o feijão. Enfim. Celso já não bebe como outrora: a idade, os quarenta anos, lhe fazem pensar um tanto no futuro certo, na segurança da aposentadoria. “Já que vai ser assim, que seja com saúde”, repete sempre que precisa negar um copo de álcool fresco. Digo a ele que não se preocupe, que bebo por nós dois, que não se constranja e me leve para casa, carregado ou não. “Toda fossa, chega um dia, encontra seu encanador”, diz-me entre um doce sorriso paternal. Rimos juntos.

Deitava-se nua ao meu lado. A tevê ligada. Deitava-se nua, eu a abraçava, acariciava-lhe os seios. Os dois interessados na tevê, no seriado americano, no programa de humor, na maravilhosa cozinha da ofélia, sabe-se lá interessados no quê. Desinteressados um do outro. Numa das primeiras vezes que nos vimos, veio com essa: “Esse é o último primeiro beijo da minha vida”. Não tinha como responder diferente, disse que era também o meu. Enganava-me, enganava-nos. Mas todo engano tem sua recuperação, sua correção, sua purificação.
Por meses a fio, a desgraça da rotina: o primeiro pensamento da manhã direcionado a alguém que não pode retribuí-lo. Não pode porque não quer. Não pode porque não deve querer. Digo a Celso o que ouvi de uma colega de trabalho, quando a comentar as minhas olheiras: dor de amor só se cura com um novo amor. Celso ri e diz que dor de amor não existe: existe é dor de cama. “Uma nova boceta, isso sim vai te curar”. Repreendo-o por não levar a sério o estado enfermo em que me encontro.

— É sério! Encontra um corpo, fode até não poder mais que quero te ver lamentando pelos cantos!
— Não acredito que eu esteja ouvindo isso de ti. Mas vou procurar, sim. Depois te falo.

Encontrei. Não estava tão bêbado como nas outras noites. Não que estivesse evitando o trago; não faz sentido evitar o inevitável. Mas nessa noite a bebida não me caía bem, simplesmente não conseguia engolir o gim, a cerveja, o conhaque. Ela entrou no bar acompanhada de uma segunda que, para dizer a verdade, nunca soube se realmente existia: havia só ela. Perguntei seu nome de forma descontraída e viril: precisava mesmo de um corpo. Na manhã seguinte, acordei tarde e sozinho. Foi bom não ter bebido tanto, minha cabeça não dói como o habitual. Saiu sem fazer barulho, decerto, porque não ouvi. E deixou um bilhete que dizia qualquer coisa sobre a noite ter sido boa, sobre ter sido bom acordar abraçada a um homem. Junto, o número de seu telefone. Já não sofria — ou pelo menos não sabia sofrer. Hesitei: e se eu telefonasse? E se não telefonasse? Passei a manhã pensando nisso. Nisso e na minha ela, por onde andaria, com quem andaria e por que. Ao meu lado, a térmica de café e dois maços de cigarro. Lá fora, trovões insistentes anunciavam a chuva de verão. “Se chover, fodeu”, pensei. “Se não chover, também”. Ri comigo. Fazia tempo que não me permitia rir. Celso se orgulhará de ter razão. Certamente que sim.

Texto, teste, testa

Quando tiver assunto aqui, escrevo aqui. Quando tiver assunto lá, escrevo lá. A questão é que, aqui, não se trata de assunto. Não sei de quê se trata, afinal, essa coisa de escrever. Mas se ela está aqui, agora (ela é e está, e vem mais estando do que sendo ultimamente), é necessário tornar o escrito capaz de ser lido. Portanto. Pois bem.

já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...